OS SENTIDOS DO TEXTO

OS SENTIDOS DO TEXTO

Engana-se quem acredita que um texto é um objeto sempre pronto para ser inteiramente apreendido por alguém. Encarar dessa forma é ver na figura do leitor um ser passivo que simplesmente se conforma em decodificar a sequência de palavras que está à sua frente. Diferente da crença alimentada pelo senso comum, o leitor nunca é passivo. Mikhail Bakhtin, filósofo da linguagem, nos lembra que o sujeito-leitor aciona a todo instante a chamada atitude responsiva ativa. Ou seja, diante do que lê ou do que ouve constrói uma interlocução permanentemente viva, mesmo que isso se dê sem manifestação verbal explícita: concorda, discorda, faz acréscimos, aponta outras direções, censura, polemiza, corrige rumos, enfim, o leitor é um ser atuante. É possível tirar boas lições pedagógicas dessa perspectiva. Continue lendo

OS DESAFIOS DA ESCRITA E O ATRASO DA DIDÁTICA

OS DESAFIOS DA ESCRITA E O ATRASO DA DIDÁTICA

Estou convencido de que o maior desafio dos professores de Língua Portuguesa continua sendo a busca de alternativas pedagógicas que possam quebrar a resistência dos estudantes em aprimorar a estruturação mais competente de seus textos. Esse fato, que se configura como crise há décadas, pode ser indistintamente constatado nos diferentes níveis escolares. É o aluno do ensino fundamental, que não consegue articular duas ou três frases, dando-lhes noção de conjunto; é o aluno do ensino médio, que encontra dificuldades para alinhavar idéias, dando-lhes o mínimo de unidade semântica; é o universitário, que, embalado pela aprovação no vestibular, supõe escrever bem, mas produz verdadeiras colchas de retalhos independentes entre si; enfim, é o professor, que vive a exigir qualidade nos textos de seus alunos, mas estranhamente nunca partilha com eles a sua produção escrita. Como consequência natural desse efeito dominó, não é difícil imaginar que a situação é grave, também, em outras instâncias. Continue lendo

O SUPERFICIAL E O RESTRITO NO ENSINO DA REDAÇÃO

Persegue-me a preocupação com o ensino voltado para o que costumo chamar de desafios da produção escrita. Sei que isso envolve questões preliminares que remontam às séries iniciais do ensino fundamental e que precisam ser encaradas sem demora por pesquisadores e professores da área. Ultimamente, entretanto, tenho voltado minha atenção de pesquisador para as três séries do ensino médio, justamente aquelas que antecedem a entrada do estudante no curso superior. Isso se deve à constatação de que, mesmo submetidos às provas do Enem e do vestibular, apenas uma parcela muito pequena de alunos consegue, e a duras penas, estruturar a contento o registro de suas idéias na modalidade escrita de sua língua materna. Diante do fato, por muito tempo, como professor da Universidade Federal do Amazonas, operei em duas frentes: tentei suprir tais carências, desenvolvendo com meus alunos calouros uma série de atividades didático-pedagógicas que considero inovadoras e voltadas exclusivamente para a produção escrita; e, simultaneamente, busquei, na análise de alguns livros didáticos por eles usados no ensino médio, possíveis respostas para suas fragilidades no campo da escrita. Com isso, penso ter conseguido avançar mais um pouco em minhas descobertas e reforçado minhas convicções. Continue lendo

O SENTIDO ESCORREGADIO DAS PALAVRAS

       Existe a crença quase generalizada de que as palavras que compõem o universo linguístico de um idioma são transparentes. No sentido de que, na perspectiva do falante, cada uma delas representa, com toda exatidão, apenas aquele significado que lhe foi socialmente passado. Assim, ao dirigir uma dada frase a alguém, esse mesmo falante acredita piamente que os significados dela retidos em sua mente serão exatamente os mesmos a serem captados pela outra pessoa. Daí ser comum, ao longo de uma conversa em que um dos lados entende diferentemente o que está sendo dito, uma das pessoas falar: “Eu fui muito claro! Não entendeu porque não quis!” Ledo engano. A coisa não se dá bem dessa maneira. Está-se diante do que os estudiosos do discurso chamam de ilusão do falante. Continue lendo

BREVÍSSIMA AULA (GRATUITA) DE ANÁLISE DO DISCURSO

BREVÍSSIMA AULA (GRATUITA) DE ANÁLISE DO DISCURSO

       A linguagem é o mais extraordinário fenômeno a marcar a vida do ser humano. Concretizada no discurso, por intermédio da língua, ela define o que somos, o que pensamos, como agimos, no que acreditamos. Tudo isso, claro, numa relação dialética. Mas num esforço de síntese, pode-se dizer que o sujeito mais é dominado do que domina o discurso, mais é seu escravo do que seu senhor. Querem um exemplo bem quentinho? Nesses dias, em uma entrevista, perguntado por que decidira limitar a cessão de aviões da FAB para os deslocamentos de Dilma Rousseff, Temer, conhecido como o usurpador, respondeu com a maior sinceridade: “A senhora presidente utiliza o avião, ou utilizaria, para fazer campanha denunciando o golpe”. Bingo! Em seu ato falho, o interino disse aquilo no que de fato acredita, mas que, por razões óbvias, tenta esconder sempre que pode. Em outras palavras, em meio às diversas vozes de seu discurso, falou aquela voz do enunciador que tem como fato estar em processo no Brasil um golpe de estado. Ou seja: é golpe mesmo! Então: Fora Temer!

O PODER DA SALA DE AULA

O PODER DA SALA DE AULA

É impossível negar a força determinante do que é transmitido no espaço do que Althusser bem definiu como aparelho ideológico escolar. Isso se deve, sobretudo, ao fato de, apesar de todas as suas precariedades e limitações materiais, tratar-se de um lugar social de extrema credibilidade. Nele, a própria configuração física do espaço concorre para tal compreensão: os alunos ficam sentados em pequenas e apertadas carteiras previamente enfileiradas, enquanto o professor dispõe de uma mesa grande, cadeira diferente e mais confortável, quadro, pincel, e liberdade de movimentos. Além disso, tem-se na figura do professor, para todos os efeitos, o detentor da sabedoria e do conhecimento, sem contar com a maior de todas as prerrogativas: a do direito efetivo ao uso da palavra, o que acaba sendo apenas circunstancial aos alunos. Tal cenário é revelador de que nada do que acontece no espaço escolar é gratuito. Tudo é carregado de sentidos. Continue lendo

HISTÓRIA E MEMÓRIA PEDAGÓGICA (6)

HISTÓRIA E MEMÓRIA PEDAGÓGICA (6)

       Eram tempos de esperança. Eu tinha retornado de São Paulo em 1987, onde havia defendido a dissertação de mestrado na Pontifícia Universidade Católica, e acompanhava de longe e com entusiasmo a promulgação, pelas mãos do bravo deputado Ulysses Guimarães, da Constituição de 1988. De volta à sala de aula, no novo Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL), no campus da Universidade Federal do Amazonas, no Aleixo, a cabeça fervilhava de ideias e planos. Um deles vingou no ano seguinte, 1989. O reitor era Roberto Vieira. Na Pró-reitoria de extensão, contávamos com o entusiasmo e o espírito desbravador de Silas Guedes de Oliveira. Continue lendo

O LUGAR SOCIAL DE SEVERINO

O LUGAR SOCIAL DE SEVERINO

O que fala não é apenas a palavra, mas o todo social. Traduzindo em miúdos, a força de sentido e de verdade de uma manifestação linguística não está amparada somente nas palavras, orações ou períodos de quem enuncia, como acreditam os gramatiqueiros de plantão. Dentre o conjunto de fatores que balizam e sustentam o que dizemos em quaisquer circunstâncias, o lugar social que ocupamos é determinante e refletirá sempre uma certa forma de correlação de forças. Mas, para melhor entendermos esse princípio, faz-se necessário apelar para o senso didático de professor. Continue lendo

O CAÇADOR DE ABSURDOS

O CAÇADOR DE ABSURDOS

Estou-me tornando um contumaz crítico da suspeita qualidade de muitos livros didáticos. É preocupante como eles circulam impunemente por tantas escolas de primeiro e segundo graus e são manuseados com entusiasmo por milhares de professores. Decorrente disso, tornam-se referência respeitada por milhares e milhares de alunos que, iludidos pela credibilidade do lugar social de onde falam seus mestres, vêm nesses livros o caminho da salvação do processo formal de aprendizagem e se esmeram para dar conta de todas as questões neles propostas como exercícios. Não, não se trata de implicância de minha parte. Trata-se, creio, de pura coincidência. Cai um desses livros em minhas mãos, em geral trazido por algum ex-aluno ou retirado por mim de alguma estante de alguma escola, abro-o inadvertidamente em alguma página e lá me vem a indignação com absurdos que ferem os mais elementares princípios científicos e pedagógicos. Continue lendo

É PRESIDENTA, SIM!

É PRESIDENTA, SIM!

De minha parte, nunca hesitei. Sempre tratei Dilma Rousseff por Presidenta. Sem a mínima preocupação com os fervorosos e sempre atentos guardiões da infalibilidade gramatical. E não se trata de nenhum modismo de minha parte. Já no início da década de setenta, quando aluno do velho ICHL, o grande mestre Carlos Eduardo Gonçalves, eterno guru, me convenceu, com sólidos argumentos, do caráter social, convencional e ideológico da construção de qualquer gramática. Ao longo de minha carreira acadêmica, como professor e pesquisador da UFAM, sacramentei a derrota do que, para muitos, ainda é dogma. Continue lendo