HISTÓRIA E MEMÓRIA PEDAGÓGICA (2)

HISTÓRIA E MEMÓRIA PEDAGÓGICA (2)

       Era uma turma da pesada. Em torno de 35 meninos e meninas, com fôlego pra dar e vender, reunidos em uma classe da antiga quinta série do ensino fundamental, em uma escola particular de classe média alta. Naquelas alturas, eu já havia deixado pra trás os bancos da Universidade Federal do Amazonas, no então prédio do Seminário São José, na rua Emílio Moreira. Não precisava mais enfrentar o sufoco e me dividir entre o Curso de Letras e as tantas salas de aula da vida, onde buscava o sofrido ganha pão pra sustentar a família. Já me permitia arriscar algumas experiências pedagógicas que julgava inovadoras, sob a orientação sempre valiosa e segura do Carlos Eduardo, que fora meu professor de linguística e prática de ensino na universidade e me convidara para trabalhar no Christus, este o nome da escola. Meu desafio com aquela turminha era conseguir arrancar deles atenção suficiente para os nossos cinquenta minutos diários de convivência e dedicação à leitura, à prática da produção escrita e às questões linguísticas, coisa não fácil para as inconsequências da idade. Dentre eles, entretanto, destacava-se uma figurinha magra, com altura acima da idade, olhinhos que giravam com a frequência e rapidez de um azougue, cabelos desgrenhados, de comportamento extraordinariamente irrequieto, falante como um grilo. Ocupava uma carteira bem no centro da sala, o que lhe estimulava movimentos repentinos de 360 graus, feito um radar especial que não só dava conta dos movimentos dos colegas como também emitia permanentes estímulos de mobilização aos pareceiros. Era sempre o centro das atenções, o que não raro comprometia a concentração de todo o rebanho. Tornou-se meu grande desafio. Comecei a me aproximar dele nos intervalos. Antecipava minha chegada à sala de aula, sentava-se ao seu lado e sondava assuntos de seu interesse, na esperança de fazer parte de seu mundo. Certo dia, descobri que era fissurado em colecionar e trocar figurinhas, em voga à época. Não contei dúvida. Ao final daquela mesma manhã, dirigi-me à banca de revistas perto da escola, comprei vários pacotes de figurinhas e um álbum. À noite, em casa, aproveitei para colar as primeiras figurinhas em meu novo passa-tempo. No dia seguinte, encontrei-o no corredor e pedi que chegasse um pouco mais cedo à sala, pois teria uma surpresa para ele. Esboçou uma expressão de que nada entendera. Dito e feito. Uns quinze minutos antes do início da aula, lá estava ele à minha espera. Mostrei-lhe meu álbum e, com ar circunspecto e humilde de um principiante no jogo que pede ajuda, propus que nos tornássemos parceiros na troca de figurinhas, pois estava interessado em apressar o preenchimento de meu álbum. À princípio, deixou escapar um sorrisinho no canto da boca, como se duvidasse do meu propósito. Como um professor se interessaria por uma coisa de menino? Encarei-o com firmeza, na tentativa de desfazer a desconfiança. Em seguida, dispensou-me um olhar de superioridade, ancorado na segurança de um experiente colecionador, e pediu-me solenemente para examinar meu álbum, ainda bastante pobre, e meu maço de figurinhas repetidas. Os próximos minutos foram de alegre descontração de duas crianças que se descobriram amigas. Da troca de figurinhas, aquela convivência evoluiu para o empréstimo de revistas em quadrinhos e o Knob, este era seu nome, tornou-se um dos mais atentos e dedicados alunos daquela saudosa turma. 

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