A DIDÁTICA DOS MACETES

A DIDÁTICA DOS MACETES

       O sujeito nunca é passivo diante do que lê. Mesmo sem se manifestar explicitamente, ele aciona mecanismos que estão sempre em interlocução com o texto e traduzem concordância, discordância, conivência, polêmica, complementação, indiferença etc. Afora esse comportamento, que se pode chamar de silencioso e estratégico, mas nunca passivo, o bom mesmo é quando o leitor põe a boca no mundo e diz o que pensa acerca do que lê. Isso é gratificante, principalmente para quem se dá como ofício a solitária escritura semanal de artigos destinados a um público aparentemente invisível. No mínimo desfaz a sensação de unilateralidade do articulista e cria oportunidade para, no espaço da interlocução mais explícita, ratificar suas idéias e crenças, reexaminá-las sob outras perspectivas ou mesmo abrir mão delas.

Certa vez, uma leitora de me escreveu manifestando dúvidas sobre o artigo “Armadilhas do livro didático”, onde eu fazia críticas aos chamados macetes no ensino da Língua Portuguesa. Registrava ela que tais expedientes são defendidos por uns e criticados por outros. Diante disso, perguntava: o que deve fazer o professor para ensinar o que é correto, se um livro diz assim e outro diz assado? É claro que tais dúvidas demandariam muito mais espaço para serem dirimidas à luz de minhas convicções, mas penso que os comentários a seguir podem representar um bom começo para uma boa discussão, tendo o livro didático como ponto de partida.

Primeiramente, suponhamos um estudo que pretenda passar ao aluno a idéia do que caracteriza a distinção entre frase e oração. Ele não pode deixar de levar em conta uma abordagem semanticamente contextualizada do tema. Afirmar, por exemplo, como está em um certo livro didático de uso corrente, que o enunciado “Fogo!” é uma frase, por ter sentido completo, é passar um conceito no mínimo equivocado. O texto dos PCN nos alerta para o fato de que “a língua é um sistema de signos histórico e social que possibilita ao homem significar o mundo e a realidade. Assim, apreendê-la é apreender não só as palavras, mas também os seus significados culturais e, com eles, os modos pelos quais as pessoas do seu meio social entendem e interpretam a realidade e a si mesmas”. Em outros termos, “a linguagem, por realizar-se na interação verbal dos interlocutores, não pode ser compreendida sem que se considere o seu vínculo com a situação concreta de produção”. Portanto, a completude de sentido de um enunciado só se dá com a inserção da palavra em uma dada situação, em um dado contexto, conforme preconizam os modernos estudos na área da Semântica do Discurso.

Em seguida, suponhamos a situação em que o autor de um livro didático explore a função sintática do sujeito. Até há pelo menos trinta anos ou mais, os estudos de natureza gramatical eram centrados em fragmentos de enunciados. Os modernos estudos linguísticos, postos a serviço do ensino de línguas, já demonstraram, entretanto, ser um equívoco essa prática descontextualizada, pois compromete a construção de determinados efeitos de sentido em determinadas circunstâncias de uso da língua. Passou-se, portanto, do estudo da palavra para o estudo da frase e desta para o estudo do texto. Aí estão, hoje, os estudos amparados na Linguística Textual, que trouxeram indiscutíveis avanços no campo da chamada pedagogia das línguas. Busquemos um exemplo no mesmo livro didático anteriormente referido. A pretexto de justificar uma abordagem “diferente”, o autor extrai da letra de uma conhecida música o trecho “No peito do desafinado também bate um coração”. O intuito é demonstrar que “um coração” exerce a função sintática de sujeito. Ora, não se concebe uma abordagem de natureza sintática que desconsidere a perspectiva semântica e, mais modernamente, o conceito de efeitos de sentido. “Não é possível tomar como unidade básica de ensino nem a letra, nem a sílaba, nem a palavra, nem a frase que, descontextualizadas, pouco têm a ver com a competência discursiva, que é questão central”. Como entender a construção discursiva deste fragmento sem inseri-lo no conjunto do texto a que ele pertence? Não é demais sacrificar a beleza da obra de Tom Jobim apenas para mostrar ao aluno que o trecho grifado é sujeito da oração? A língua não existe em pedaços, mas em forma de tecido ou, usando um termo regional, de malhadeira ou tarrafa, em que as partes só ganham vida em articulação com as outras, formando um todo.

No mais, estou convencido de que o ensino precisa ser pragmático. Deve se pautar por uma abordagem que motive o falante a efetivamente praticar sua língua de cultura. Afinal, de que vale apenas decorar regras, conceitos e macetes, isto é, ficar no plano puramente metalinguístico? Ao longo de tantos quilômetros rodados em salas de aula, eu já cruzei por muitos estudantes que destrinchavam as mais cabeludas questões gramaticais, mas eram incapazes de escrever um parágrafo que tivesse algum norte.

Como se pode ver, o assunto fornece pano para muita manga.

Share on Facebook0Tweet about this on TwitterShare on Google+0Pin on Pinterest0Email this to someonePrint this page