A ESCOLA E A PRÁTICA SOCIAL DA ESCRITA

A ESCOLA E A PRÁTICA SOCIAL DA ESCRITA

Escrever é uma tarefa fácil e prazerosa? No tempo de eu estudante, ao longo de todo o período que vai do ensino fundamental ao médio, fui convencido de muitas coisas. Não deve ter sido diferente com outras pessoas de minha geração. Afinal, o lugar social de poder e credibilidade de onde fala uma professora ou um professor no interior de uma sala de aula é suficientemente respeitado para inibir o florescimento de dúvidas. Pois bem, eu alimentei, por anos a fio, a convicção de que escrever era algo muito simples e gostoso. Muito tempo e muita angústia depois, dei-me conta de que os professores se esqueceram de me dizer duas coisas fundamentais: que o ato de construir um texto não se resume ao simples e mecânico registro das idéias no papel (ou, hoje, na telinha do computador) e que redigir não é uma ação de uso exclusivo das aulas de Língua Portuguesa. Lembro isso a propósito de ter folheado recentemente um livro didático, desses distribuídos atualmente pelo governo, e constatado que ele insiste na crença da mesma verdade que a mim foi impingida, o que enseja uma reflexão sobre o tema.

O chamado ensino fundamental e médio tem como compromisso a busca de uma ampla formação intelectual e humanista dos estudantes. É natural, entretanto, que, subjacente a esse propósito maior, eles desenvolvam habilidades que os credenciem a enfrentar certos desafios que fazem parte da sociedade competitiva na qual estão inseridos, como, por exemplo, os concursos para empregos e os Enem da vida. O inconseqüente é inverter essa relação, pondo todo um aparato didático a serviço exclusivo da preparação dos estudantes para responder às questões, muitas vezes mal elaboradas, dos concursos da vida, sob pena de se estar empobrecendo a sua formação e tornando simplistas os compromissos sociais da escola.

Neste sentido e no que tange particularmente à produção escrita, o livro didático que me caiu em mãos evidencia uma preocupação tão exacerbada em preparar os alunos para os tais concursos, que acaba comprometendo a criatividade e o exercício da prática de redigir. Ou seja, se, de um lado, explora os chamados “macetes”, como um genérico “roteiro para a feitura da dissertação” e a ridícula observação sobre o respeito ao “exato número de linhas utilizado”, de outro, deixa de mediar a compreensão do aluno acerca de uma questão elementar, como a estrutura básica de um texto padrão, qualquer que seja o seu gênero, e das infinitas possibilidades de criação que podem margeá-lo.

Bem a propósito, os Parâmetros Curriculares Nacionais nos lembram que uma conversa entre professor e alunos representa “uma importante estratégia didática em se tratando de produção de textos”, uma vez que permite, por exemplo, “a explicitação das dificuldades e a discussão de certas fantasias criadas pelas aparências. Uma delas é a da facilidade que os bons escritores (de livros) teriam para redigir. Quando está acabado, o texto praticamente não deixa traços de sua produção. Este, muito mais que mostrar, esconde o processo pelo qual foi produzido. Sendo assim, é fundamental que os alunos saibam que escrever, ainda que gratificante para muitos, não é fácil para ninguém”.

Ao contrário disso, ludibriam-se os alunos, que são levados a acreditar no mito de que o ato de escrever é muito simples e depende apenas do conhecimento de algumas regrinhas, o que acaba escolarizando o ato de redigir, como se fosse uma habilidade a ser praticada exclusivamente entre as quatro paredes de uma sala de aula. Resultado: os estudantes não são preparados para enfrentar os concursos da vida, muito menos para o desafio de produzir textos com razoável qualidade.

O preocupante, em tal situação, é que um livro didático elaborado nos moldes aqui referidos reforça a cristalização de falsas verdades, o que é extremamente comprometedor para o cumprimento dos propósitos pedagógicos da escola, e privatiza a redação, transformando-a num objeto que só tem valor em circunstâncias escolares, o que, nos dizeres de Magda Soares, apaga o fato de que “a escrita traz conseqüências sociais, culturais, políticas, econômicas, cognitivas, linguísticas, quer para o grupo social em que seja introduzida, quer para o indivíduo que aprenda a usá-la”.

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