A NATUREZA DO DISCURSO

A NATUREZA DO DISCURSO

       O discurso nunca é gratuito. Traduzindo em miúdos: nunca se fala por falar, nunca se diz por dizer. De forma velada ou ostensiva, ele sempre traz consigo um dado propósito. Em outros termos e no sentido mais genérico, todo discurso é de natureza política, porque administra mecanismos que têm por fim agir sobre o interlocutor. A propósito, referindo-se à língua como instrumento de poder, o sociólogo Pierre Bourdieu nos lembra que, ao falarmos, “não procuramos somente ser compreendidos, mas também obedecidos, acreditados, respeitados, reconhecidos”. Pode-se afirmar, portanto, que a linguagem é desprovida de inocência.

Mas essa natureza política do discurso pode se manifestar alicerçada nas mais diferentes estratégias. No caso do chamado discurso religioso, por exemplo, vislumbro, de imediato, duas formas de ação. Na primeira, ele se sustenta em um número restrito de palavras e conceitos. Estabelece, com isso, uma relação única, direta e indiscutível entre o sujeito e o caminho da salvação que lhe é oferecido. Neste caso, a descontextualização constrói o fetiche e, conseqüentemente, favorece a fidelidade e a dependência mais estreitas entre quem diz e quem ouve. Na segunda, o discurso religioso é calcado num universo muito mais amplo de palavras e conceitos. Estabelece, com isso, nexo entre o sujeito e o caminho da salvação que lhe é oferecido e as mais diferentes e antagônicas formas de relações sociais. Neste caso, a contextualização permite ao sujeito, alvo do discurso, maior espaço para pensar o mundo que está em seu redor e, consequentemente, até desmontar as estratégias discursivas de seus interlocutores.

Nestas e em outras situações, só não é prudente entender o discurso apenas como uma ingênua forma de comunicação entre as pessoas. Ou alguém ainda acredita que este meu texto tem as marcas da neutralidade?

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