A PEDAGOGIA DO ABSURDO

A PEDAGOGIA DO ABSURDO

Apesar de tantos avanços pedagógicos, parece cada vez mais enraizada a crença, traduzida em prática, de que a função da escola se resume a despejar sobre os alunos conhecimentos da mais pura originalidade. Em lá chegando, eles se postam diante do detentor do saber – o professor –, a quem compete abastecê-los. Assim, quanto maior a quantidade de conhecimentos repassados e retidos, mais a escola cumpre o seu papel de guardiã e fomentadora do saber, mais ela prepara seus alunos para enfrentarem os desafios que a vida lhes impõe. Decorrente dessa compreensão, reforça-se a autonomia da escola em relação a tudo o que está em seu redor: ela produz seus próprios conhecimentos, constrói estratégias para repassá-los e estabelece mecanismos próprios de aferição.

O mais comprometedor desse estranho viés é que o professor, guiado pela certeza da autonomia, nutre a arrogância de ser portador do ineditismo de tudo quanto transmite no espaço de sala de aula. Por tabela, considera que os alunos se apresentam à escola zerados de quaisquer conhecimentos e despossuídos de quaisquer informações, apagando, assim, a sua rica e inevitável experiência de vida, o que absurdamente apaga, também, a sua história.

Embora generalizado em outras áreas, na disciplina Língua Portuguesa esse comportamento assume características mais específicas e contraditórias. Ilustrativo disso, por exemplo, é o professor que entra em sala no primeiro dia de aula e, categoricamente, afirma que o seu objetivo ali é ensinar português. Como, por tradição, o lugar de onde fala o professor é referendado na credibilidade de quem detém o saber e o poder, os alunos acreditam piamente estarem ali para esse fim. São convencidos, portanto, de que não sabem falar a sua própria língua materna ou, o que é pior e descamba para o preconceito, no máximo a falam de forma errada, o que deve gerar uma situação no mínimo complicada na cabeça deles. Afinal, se não sabem falar português, qual é a língua de que se valem para se comunicar com seus pais, seus irmãos, seus colegas, seus vizinhos, seus parentes? Essa pedagogia do absurdo está ancorada na desinformação e no equívoco didático.

No primeiro caso, o professor carece de informações linguísticas elementares. Desconhece o fato de que a língua materna não é aprendida, mas transmitida naturalmente ao falante como consequência do seu convívio num determinado grupo social. Em termos óbvios, isso projeta dois desdobramentos: a) ninguém precisa submeter-se aos procedimentos formais da escola para dominar sua língua; b) é impossível alguém não ter domínio pleno de sua língua materna. O objetivo do trabalho do professor, nesse caso, não seria “ensinar” português, mas construir mecanismos que permitissem aos alunos ajustar o uso que eles já fazem da língua às normas que regulamentam a chamada variedade padrão ou variedade de prestígio, aquela que a escola cultua.

O desconhecimento gera o que chamei de equívoco didático. Na medida em que desrespeita e até menospreza o domínio natural da língua materna e arroga-se a “ensinar” português, o professor cria um enorme fosso entre o desempenho dos alunos e a variedade padrão a ser alcançada, o que provoca desestímulo no processo de aprendizagem. Ao contrário, o ideal seria que, numa atitude didática politicamente desejável, o professor respeitasse e capitalizasse o domínio linguístico que os alunos já trazem de seu grupo social e, a partir daí, trabalhasse os acréscimos e os ajustes que os colocariam frente a novas possibilidades de uso na sua língua materna, aí incluída, evidentemente, a variedade de prestígio regulada pela gramática normativa. Bem diferente, portanto, de cristalizar como verdade a mentira de que seus alunos nada sabem, nada dominam do seu próprio idioma, o que cientificamente não tem sustentação alguma.

Share on Facebook0Tweet about this on TwitterShare on Google+0Pin on Pinterest0Email this to someonePrint this page