A PEDAGOGIA DO CERTO E DO ERRADO

A PEDAGOGIA DO CERTO E DO ERRADO

       A escolha de um livro didático deve-se pautar por rigorosos critérios. Afinal, trata-se de um instrumento que tanto pode funcionar como importante parceiro do profissional da educação quanto pode comprometer seriamente seu trabalho pedagógico. No caso de um livro didático de Língua Portuguesa, dois aspectos relevantes devem ser considerados: o respeito ao conhecimento empírico do aluno e a relativização do conceito de certo e errado.

       Em relação ao primeiro, não há necessidade de sólida formação na área de linguística para sabermos que, independentemente de sua passagem pela escola, o falante nativo traz internalizada a gramática que estrutura o funcionamento de sua língua. Trata-se de um processo de transmissão que se dá de forma natural, guiado pelas relações sociais. Dizemos, em outros termos, que a língua materna não é adquirida, ela é transmitida. Ou seja, o falante, ao submeter-se ao trabalho proposto no livro didático e desenvolvido na escola, já domina a sua língua nos termos da variante que predomina em seu grupo social, fato bastante óbvio, haja vista a existência de milhões de pessoas no país que, apesar de não terem tido acesso ao processo formal de escolarização, comunicam-se muito bem com seus pares e resolvem seus pequenos e grandes problemas. O que há, em verdade, é uma distância maior ou menor (e isso envolve, sobretudo, questões de ordem econômica e social) em relação às exigências da variedade padrão impostas pelas prescrições da gramática normativa.

       Acontece que os livros didáticos em geral não levam em conta esses fatores e tratam as questões, principalmente as de ordem gramatical, como algo inteiramente alheio ao domínio e ao conhecimento empírico do aluno. Desconsideram que, “com o deslocamento do eixo da investigação das questões do ensino para as questões da aprendizagem, foi possível compreender que as crianças sabiam muito mais do que se poderia supor até então, que elas não entravam na escola completamente desinformadas, que possuíam um conhecimento prévio”. Assim, além de acentuar o preconceito linguístico, esses livros criam dificuldades didático-pedagógicas, uma vez que distanciam o trabalho escolar da vida do aluno. Em outros termos, escolarizam os conteúdos como se fossem de uso exclusivo do livro didático e do professor.

       Para isso, a alternativa mais racional é respeitar o conhecimento empírico que o aluno já tem da sua língua, para, a partir daí, desenvolver atividades que o coloquem em situação de permanente contato com as exigências da gramática normativa, possibilitando, assim, que ele as internalize não como elementos novos, mas como acréscimos àquele domínio que, na condição de falante nativo, já traz da sua convivência social.

       Em relação ao segundo aspecto, não se considera louvável que um livro didático de Língua Portuguesa que se proponha moderno insista em trabalhar com o maniqueísmo do certo e do errado. Nestes termos, aquele uso que atende as regras da gramática normativa é considerado certo e aquele que não a respeita é considerado errado. Significa dizer que o conhecimento internalizado que o aluno tem da sua língua está no plano do erro, o que, hipoteticamente, significa também dizer que, num efeito dominó, seus pais falam errado, seus irmãos falam errado, as pessoas outras com quem ele se relaciona falam errado e apenas o livro didático e o professor falam certo.

       Do ponto de vista linguístico, é problemática essa forma de abordagem. Cientificamente, esse maniqueísmo não se sustenta. O mais razoável seria tratar as diversas possibilidades de uso, aí incluída a variedade padrão da língua trabalhada na escola, na perspectiva da adequação ou inadequação. Por essa via, não há nada de inadequado dizer, em uma conversa informal e descontraída, “Me dê a tua palavra como garantia do compromisso”. Já o mesmo enunciado, dito em uma conversa ou em um texto escrito formal, mostra-se inadequado, devendo-se, neste caso, apelar para a alternativa “Dê-me a sua palavra como garantia do compromisso”. A respeito disso, os PCN ressaltam que “o avanço no conhecimento das áreas afins torna possível a compreensão do papel da escola no desenvolvimento de uma aprendizagem que tem lugar fora dela. Não se trata de ensinar a falar a fala ‘correta’, mas sim as falas adequadas ao contexto de uso”. Uma das grandes vantagens de tal procedimento é considerar a realidade heterogênea do uso da língua; outra, em demonstrar que ela é rica em alternativas que podem se adequar aos propósitos do falante; outra, ainda, é não se discriminar o aluno e, com isso, conseguir resultados pedagogicamente mais produtivos.

       Os dois aspectos considerados formam convicção de que a escolha de um livro didático de Língua Portuguesa, ao lado de tantas outras questões aqui não referidas, passa pelo respeito à cidadania dos nossos alunos.

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