A PEDAGOGIA DA INTOLERÂNCIA

A PEDAGOGIA DA INTOLERÂNCIA

       Um tema muito caro hoje aos estudiosos e pesquisadores da área de Linguística é o chamado preconceito linguístico. Tanto quanto outras formas de preconceito, ele humilha, maltrata, apequena, é obstáculo à construção da cidadania. Pode haver algo mais constrangedor do que você ser censurado, em geral impiedosamente, por “falar errado” sua própria língua materna?

       A base dessa intolerância está na falsa crença, já enraizada no imaginário da população e, o que é mais preocupante, da maioria dos professores da área, de que há uma extraordinária homogeneidade no uso da Língua Portuguesa, o que não é verdade. A própria convivência social do dia a dia está a demonstrar que diferentes grupos fazem uso do mesmo código linguístico guiados por diversas particularidades. Essa dimensão agiganta-se quando se consideram as variedades linguísticas dos falantes dos diversos bairros da cidade, dos municípios, mesmo dos mais próximos, de outros estados, de outras regiões, enfim, não dá para arrolar toda a riqueza de falares que coabitam sob o manto do português falado no Brasil. Nesse heterogêneo universo, a chamada vertente culta da língua, por tradição e razões políticas, é apenas uma variedade a mais, ainda que socialmente prestigiada.

       O fato levou estudiosos da linguagem a entenderem que, a despeito de ser indiscutível a necessidade da escola privilegiar essa variedade, que tem como paradigma a chamada gramática normativa e que Pierre Bourdieu, apropriadamente, chama de “capital linguístico escolarmente rentável, é imperativo o respeito às outras variedades, que devem ser tratadas como diferentes e não estigmatizadas como erro. Os Parâmetros Curriculares fazem o alerta de que “o problema do preconceito disseminado na sociedade em relação às falas dialetais deve ser enfrentado, na escola, como parte do objetivo educacional mais amplo de educação para o respeito à diferença”. Em outras palavras, é desejável que a variedade de prestígio não seja apresentada como única, mas como uma ferramenta necessária que uniformiza o uso e aprimora a expressão e a comunicação verbal, principalmente na sua modalidade escrita. “A questão não é falar certo ou errado, mas saber qual forma de fala utilizar, considerando as características do contexto de comunicação, ou seja, saber adequar o registro às diferentes situações comunicativas. É saber coordenar satisfatoriamente o que falar e como fazê-lo, considerando a quem e por que se diz determinada coisa”.

       Isso me lembra um fato ocorrido há muitos anos, época em que eu exercia a docência no ensino fundamental, à noite, em uma escola da rede pública localizada no bairro da Alvorada. Vivia-se o auge do Distrito Industrial. A maioria dos alunos, num sacrifício notável, saía das linhas de montagem, ao final do expediente, para os bancos escolares. Ao longo de uma aula sobre leitura e interpretação de texto, percebi que um dos alunos olhava-me com um ar de certa inquietação. Vencida a barreira que o separava de se manifestar, comum nos primeiros dias de convívio com colegas e professores, confessou-me não haver entendido o sentido da palavra “entreter” em um dado trecho do texto lido. Em vez de imediatamente apresentar a ele o significado dicionarizado, como tradicionalmente acontece nessas situações, procurei contextualizar a palavra em diferentes situações de uso. Vendo que persistia a sua dificuldade de compreensão, perguntei-lhe se morava com a família e tinha irmãos menores. Diante da resposta afirmativa, simulei uma situação que, confirmei depois, fazia parte do seu cotidiano. Sua mãe bastante ocupada e os seus irmãos menores fazendo danação. De repente, ela se dirige ao filho mais velho e fala: “Milton, vai entreter esses meninos!” Naquele momento, vi em seu olhar um brilho de enorme satisfação. Muito seguro de si, o meu aluno exclamou: “Ah! Já sei, professor! É mesmo que enterter!” Sem pensar duas vezes, e feliz da vida, eu respondi: “É isso mesmo!” Ou seja, em lugar do perverso e costumeiro “está errado!”, penso ter feito com que ele percebesse, pela leitura do texto e pela situação criada, que nisso está um elemento enriquecedor de qualquer língua: formalmente se deve usar “entreter”, sem descartar, entretanto, a possibilidade de uso coloquial do “enterter”, afinal, assim lhe foi passado pelo seu grupo social.

       Em síntese e para fechar este texto, o que reivindico é uma ação pedagógica politicamente adequada que permita aos alunos falantes da Língua Portuguesa o domínio da modalidade culta sem que, para isso, sejam obrigados a sentir vergonha e humilhação por falarem diferente.

Share on Facebook0Tweet about this on TwitterShare on Google+0Pin on Pinterest0Email this to someonePrint this page