ARMADILHAS DO LIVRO DIDÁTICO

ARMADILHAS DO LIVRO DIDÁTICO

       Certa vez, em debate com professoras e professores da rede pública estadual sobre o livro didático, afirmei ser indiferente a sua boa ou má qualidade, desde que ele estivesse nas mãos de um professor com boa formação pedagógica e linguística. Creio que tenha radicalizado. Acredito, sim, que um livro didático de boa qualidade nas mãos de um bom profissional tem tudo para somar excelentes resultados pedagógicos. Já nas mãos de um profissional limitado, que o tenha como única referência, representará um mal menor. O risco maior, todavia, está na possibilidade de um livro didático de péssima qualidade cair nas mãos desse último profissional. A tendência, neste caso, é que ele ratifique equívocos e tente passá-los como verdades aos alunos. Limitando-se à área de Língua Portuguesa, não me parece difícil apresentar ponderações que justifiquem minhas preocupações e ajudem a fugir de algumas armadilhas do livro didático.

É indiscutível que a chamada gramática normativa carrega consigo uma série de contradições. É indiscutível, também, entre os estudiosos da linguagem, que tais deslizes devem ser esclarecidos aos alunos, sob pena de se ratificar o dogmatismo gramatical e se criarem obstáculos didáticos que podem se transformar em entraves para o processo ensino-aprendizagem da variedade padrão da língua. Não é pedagógico, por exemplo, afirmar-se categoricamente em um livro didático que, do ponto de vista sintático, o sujeito é um termo essencial da oração, uma vez que, mais adiante, o aluno se defrontará com a existência das chamadas orações sem sujeito. Como algo pode ser essencial e, logo adiante, ser descartável como tal? Pode-se dizer que esse tipo de abordagem é pouco didático e nada produtivo.

Se há um pecado inadmissível em um livro didático é o que se convencionou chamar de “pegadinha”. Aborda-se um dado conteúdo e, na sequência, propõem-se aos alunos questões que se transformam em armadilhas, já que não têm ligação direta com o anteriormente explorado. Isso é recorrente na maioria dos livros. Tome-se, a título de exemplo, o tema “Frase e Oração”. Após abordagem inicial, bombardeiam-se os alunos com perguntas teóricas voltadas para os aspectos fonéticos, morfológicos, morfossintáticos etc. O que menos se explora e se contextualiza é o conteúdo em pauta. Com isso, o livro didático perde o seu caráter didático e passa a ser uma caixinha de surpresas.

É preocupante, por outro lado, saber que os chamados “macetes” estão invadindo os livros didáticos. A pretexto de “facilitar” a vida dos alunos nas mal elaboradas provas de concurso, criam a ilusão de que o efetivo domínio da variedade padrão da língua depende exclusivamente desses expedientes. Amparados nesse princípio, os alunos decoram as regrinhas, mas logo descobrem que funcionam em algumas poucas situações, em outras, não. Mais uma vez, está-se diante de uma alternativa que torna estreitos os verdadeiros objetivos do trabalho do professor de Língua Portuguesa como mediador do processo ensino-aprendizagem.

Neste sentido, é um grande equívoco afirmar que o “sujeito é um dos termos essenciais da oração que se reconhece com as perguntas “quem é quê?” ou “o que é quê?” Como está expresso nos Parâmetros Curriculares Nacionais, “se o objetivo principal do trabalho de análise e reflexão sobre a língua é imprimir maior qualidade ao uso da linguagem, as situações didáticas devem, principalmente nos primeiros ciclos, centrar-se na atividade epilinguística, na reflexão sobre a língua em situações de produção e interpretação, como caminho para tomar consciência e aprimorar o controle sobre a própria produção linguística”. O “macete” é uma praga que, gestada e desenvolvida nos cursinhos pré-vestibulares, não encontra sustentação científica nem pedagógica.

Nos termos abordados, pode-se até relativizar a maior ou menor qualidade de um livro didático, mas não resta dúvida de que, nas mãos de um bom professor, a primeira qualidade potencializa o alcance pedagógico do seu trabalho; a segunda pode ser capitalizada em favor de um grande proveito no processo ensino-aprendizagem.

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