DA VIDA PARA A ESCOLA

DA VIDA PARA A ESCOLA

       Ouvir o galo cantar sem saber onde é perigoso. Induz a equívocos graves. Há algum tempo, os jornais publicaram matéria sobre um livro didático de língua portuguesa que estaria “defendendo falar errado”. A descontextualização motivou manifestações até de intelectuais do porte de Frei Beto. No Tuíter, ele andou malhando a obra sem real conhecimento de causa. Pois retomo aqui antiga reflexão minha sobre o tema.

       Um livro didático é instrumento que pode funcionar como importante parceiro do profissional da educação no seu desafio de partilhar conhecimentos no espaço de sala de aula, mas, quando de qualidade duvidosa, pode comprometer muito um trabalho pedagógico. Neste sentido, dois aspectos relevantes devem ser considerados: o respeito ao conhecimento empírico do aluno e a relativização do conceito de certo e errado. Restringindo-me, aqui, à primeira situação, devo lembrar não haver necessidade de formação na área de linguística para sabermos que, independentemente de sua passagem pela escola, o falante nativo traz internalizado a gramática que estrutura o funcionamento da sua língua. Trata-se de processo de transmissão, se dá de forma natural, guiado pelas relações sociais. Dizemos, em outros termos, que a língua materna não é adquirida, é transmitida. O falante, ao submeter-se ao trabalho proposto no livro didático e desenvolvido na escola, já domina a sua língua nos termos da variante que predomina em seu grupo social, fato bastante óbvio, haja vista a existência de milhões de pessoas no país que, apesar de não terem tido acesso ao processo formal de escolarização, comunicam-se muito bem com seus pares, resolvendo seus pequenos e grandes problemas. Há, em verdade, uma distância maior ou menor (e isso envolve, sobretudo, questões de ordem econômica e social) em relação às exigências da variedade culta impostas pelas prescrições da gramática normativa da língua portuguesa. E os livros didáticos em geral não levam em conta isso. Abordam as questões, principalmente as de ordem gramatical, como inteiramente alheias ao conhecimento empírico do aluno. Desconsideram que, “com o deslocamento do eixo da investigação das questões do ensino para as questões da aprendizagem, foi possível compreender que as crianças sabiam muito mais do que se poderia supor até então, que elas não entravam na escola completamente desinformadas, que possuíam um conhecimento prévio”. Assim, além de ratificar o preconceito linguístico, criam dificuldades didático-pedagógicas, uma vez que distanciam o trabalho da escola da vida do aluno. Em outros termos, escolarizam os conteúdos como se fossem de uso exclusivo do livro didático e do professor.

       Para isso, a alternativa mais racional é respeitar o conhecimento empírico que o aluno já tem da sua língua. A partir daí, isso sim, desenvolver atividades didático-pedagógicas que o coloquem em situação de permanente contato com as exigências da gramática normativa, possibilitando que ele as internalize não como elementos novos, mas como acréscimos àquele domínio que, na condição de falante nativo, já traz da sua convivência social. Ou seja, deve-se partir da vida para a escola, não desta para aquela.

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