DESCONSTRUINDO MITOS

DESCONSTRUINDO MITOS

       Vista de longe, a cena lembrava pessoas famintas saqueando um hipermercado. Com movimentos velozes, percorriam indistintamente as várias estantes. Escolhida a preferência, marcavam frenética carreira em direção ao alvo. Os olhos brilhantes comandavam os movimentos ágeis das mãos manuseando carinhosamente os objetos. Esses gestos se desdobravam em expressão de puro contentamento. Abraçadas aos produtos, como alguém que defende ardorosamente um território conquistado, dispersavam-se tomando diferentes rumos. No rosto, sorrisos de crianças que acabam de saciar a fome.

       Não, a cena não se deu em um hipermercado. As pessoas não estavam ali em busca de alimentos. Curiosamente, a cena deu-se no espaço de uma livraria que oferecia até 70% de descontos. E aquelas pessoas queriam matar uma outra fome: a fome de leitura.

       Diante do fato, vieram-me à lembrança as pautas que tradicionalmente têm ocupado os debates em torno do tema leitura, marcados sempre por um cipoal de acusações. Os pais culpam os professores, por não conseguirem estimular os alunos à leitura. Os professores culpam a TV, por magnetizar as crianças e causar nelas desinteresse pelos livros. Os pedagogos, por sua vez, culpam os pais, por não acompanharem a vida escolar dos filhos, o que estaria contribuindo com a aversão à leitura. Há outros que culpam até a preguiça dos brasileiros pela falta de hábito de leitura. Há, ainda, aqueles que dizem que nossas crianças simplesmente não gostam de ler. Isso tudo, sem contar com outras tantas generalizações.

       Nesse jogo de empurra-empurra, torna-se necessário separar o joio do trigo. De um lado, é fato que as questões pontuadas acima não podem ser desprezadas. Mas é fato também que, isoladamente, não se sustentam, pois fazem parte de um processo mais complexo que envolve tanto acusadores quanto acusados. De outro, estou convencido de que a cena descrita na abertura deste texto, além de desconstruir alguns mitos, evidencia a contundente denúncia de que a exclusão da leitura é, na verdade, filha legítima da exclusão social. Ou seja, fome de leitura não falta. Falta grana para matar essa fome.

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