É PRESIDENTA, SIM!

É PRESIDENTA, SIM!

De minha parte, nunca hesitei. Sempre tratei Dilma Rousseff por Presidenta. Sem a mínima preocupação com os fervorosos e sempre atentos guardiões da infalibilidade gramatical. E não se trata de nenhum modismo de minha parte. Já no início da década de setenta, quando aluno do velho ICHL, o grande mestre Carlos Eduardo Gonçalves, eterno guru, me convenceu, com sólidos argumentos, do caráter social, convencional e ideológico da construção de qualquer gramática. Ao longo de minha carreira acadêmica, como professor e pesquisador da UFAM, sacramentei a derrota do que, para muitos, ainda é dogma.

A exemplo de outros campos que envolvem as relações sociais, uma gramática é nada mais nada menos do que a sistematização do que dizem e como dizem os falantes num dado momento de sua história. É, desse modo, reflexo das diferentes formas de uso da língua por esses mesmos falantes. Leve-se aí, em conta, as relações ideológicas de força e poder que marcam a convivência entre os usuários. Trocando em miúdos: por que, a princípio, podemos achar estranho o uso de presidenta? Simples. Porque nunca antes na história do País elegeu-se uma mulher para assumir o mais alto cargo da República, até então privativo dos homens. Coisa do destino? Claro que não! Porque historicamente às mulheres sempre foi negado, pela força dominante do machismo, o direito de assumir cargos políticos de comando.

Até 1979, pra buscar um outro exemplo, o Senado Federal era ocupado apenas por representantes masculinos. Naquele ambiente, de suposta representação da sociedade, não se pronunciava o termo senadora. Quando a amazonense Eunice Michiles, primeira suplente de João Bosco de Lima, assumiu o mandato, o que convencionalmente inexistia passou a existir: se-na-do-ra. Viram? A questão tem pouco de gramatical e muito de político.

Por coincidência, lendo nesses dias na revista Caros amigos um artigo do professor e linguista Marcos Bagno, da UNB, apenas somei reforço à minha convicção. Ele nos faz lembrar que, há 140 anos, nenhum dicionário ou gramática registrava os termos doutora, engenheira, arquiteta, advogada, juíza, desembargadora, aviadora, deputada, senadora, governadora ou ministra. Por que isso? Simples. As mulheres, repito, não tinham força social nem política para atuar nessas profissões, muito menos para ocupar esses cargos públicos, reserva de mercado dos homens. Em consequência, tanto os dicionários quanto a gramática refletiam essa esdrúxula realidade política, social e ideológica.

Portanto, é Presidenta, sim! Resistir ao uso desse substantivo feminino é prova inconteste de reacionarismo e de resistência à igualdade de gênero e às conquistas das mulheres nas últimas décadas. Ou é pura desinformação.

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