ENTRE A GRANA E A FOME DE LEITURA

ENTRE A GRANA E A FOME DE LEITURA

Pesquisa de um órgão vinculado ao MEC deu conta de que apenas 26% da população com mais de 15 anos têm “domínio pleno” das habilidades de leitura e escrita. Em outras palavras: somente um em cada 4 brasileiros jovens e adultos consegue “compreender totalmente” as informações contidas em um texto e relacioná-las com outros dados. Diante da constatação, aponta-se a saída mágica: implementar um programa chamado Fome de Livro, que “democratize o acesso ao livro”. Neste caso, manda a prudência ir devagar com o andor, enquanto se analisam os mitos e os fatos que envolvem a questão.

É sem dúvida preocupante saber que muitos brasileiros estão excluídos das práticas sociais envolvendo a leitura e a escrita. Afinal, esse exercício é o principal responsável pela construção do espaço da cidadania em qualquer sociedade dita civilizada. Entretanto, a pesquisa desperta algumas suspeitas no que tange à exatidão no desempenho de tais atividades. É puro mito asseverar o “domínio pleno” das habilidades de leitura e a “compreensão total” de um texto.

No primeiro caso, recentes estudos linguísticos apontam para o conceito de letramento como habilidade situada além e aquém do processo formal de alfabetização, o que vislumbra no ato de ler um processo amplo e da maior complexidade que não se limita à simples decodificação de um texto. É comum, nessa perspectiva, um falante pouco escolarizado demonstrar uma leitura mais abrangente do mundo que o cerca em relação a um outro que tenha sido submetido a um processo formal de escolarização mais longo. Ou seja, há uma infinidade de outros fatores, alguns de difícil mensuração, que contribuem direta ou indiretamente para a formação de leitores. Inclua-se aí o fato de envolver a projeção de sentidos. Mais que os registros no texto, eles dependem da formação ideológica do leitor e indicam que ele nunca age passivamente diante do que lê. Isso parece desautorizar uma aferição matemática que julgue um leitor como tendo “domínio pleno” de tais habilidades.

No segundo caso, estudos já consolidados na área da Análise do Discurso comprovam o equívoco que representa atribuir-se a alguém a “compreensão total” de um texto. Além de colocar o leitor na condição de sujeito absolutamente passivo, é atribuir ao texto total transparência naquilo que se mostra no plano da visibilidade das palavras, como se elas falassem por si. Ora, os sentidos não são dados antecipadamente, como algo sempre pronto. São construídos e sedimentados nos espaços dos encontros e conflitos que dirigem os interesses e as relações sociais. Entenda-se: o código da língua portuguesa é o mesmo para todos os brasileiros, mas cada grupo social trabalha esse mesmo código de acordo com seus interesses. Significa isso dizer que os sentidos que nós atribuímos ao construir um texto nem sempre serão os mesmos apreendidos pelo leitor na outra ponta do processo. O que nós entendemos por texto funciona apenas como uma unidade básica de comunicação, e a compreensão, pelo leitor, do que pensamos e nele dizemos através da língua vai depender, igualmente, da formação do leitor identificar-se ou não com a nossa formação. Na prática, são esses complexos fatores responsáveis pelo fato de escrevermos algo pensando em passar tal idéia e sermos entendidos de forma bem diferente. Isso parece desautorizar, também, a idéia da “compreensão total” de um texto.

A despeito dessas considerações de caráter mais metodológico, é preciso, sim, “democratizar o acesso ao livro”, mas não com ações mágicas que se limitem à retórica e a programas governamentais paliativos, desses que, lançados com festas e discursos, em pouco tempo caem no vazio. Para isso, outros dados do MEC e da Câmara Brasileira do Livro são mais contundentes e norteadores de caminhos: 89% dos municípios brasileiros não possuem livrarias e 61% dos brasileiros adultos alfabetizados têm muito pouco ou nenhum contato com os livros. Curiosamente, entretanto, 67% dos brasileiros têm interesse pela leitura! Ou seja, ao lado da proliferação e efetivo funcionamento de bibliotecas públicas e livrarias, faz-se necessário, sobretudo, baratear o custo do livro, este, sim, o obstáculo mais resistente ao sucesso de uma campanha que popularize o ato de ler. Fome de leitura não falta. Falta grana para matar a fome de leitura.

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