HISTÓRIA E MEMÓRIA PEDAGÓGICA (3)

HISTÓRIA E MEMÓRIA PEDAGÓGICA (3)

       À época, minhas manhãs e tardes eram ocupadas no então Centro Educacional Christus do Amazonas, na Joaquim Nabuco. Convivia com alunos do ensino fundamental e médio. Foi um período rico no aprimoramento de minha prática pedagógica, recheado de experiências inovadoras que marcaram toda minha carreira de professor. A escola oferecia um excelente padrão de estrutura física e didático-pedagógico, o que me dava liberdade de dispor de um vasto material de apoio para minhas aulas, muito além, portanto, do livro didático adotado. Essa liberdade, aliada ao entusiasmo de querer inovar no que se transformaria na profissão de minha vida, me permitia, por exemplo, criar grande parte do material didático a ser trabalhado em sala de aula, principalmente no que tange à leitura e exploração de textos. Consequência disso, o livro didático, na verdade, acabava funcionando apenas como material complementar. Mas minha ocupação não se limitava ao Christus. À noite, durante três dias na semana, eu militava no ensino público, em uma escola estadual chamada Manuel Severiano Nunes, no bairro da Alvorada. Diferente dos alunos do Christus, filhos de pais abastados, minha convivência no “Manelão”, como carinhosamente chamávamos a escola, era com adultos que enfrentavam enormes dificuldades para se manter nos bancos escolares. A grande maioria já chegava à escola no limite do cansaço e da exaustão, depois de uma jornada de oito horas nas linhas de montagem do Distrito Industrial. Longos cochilos durante as aulas não eram incomuns. Livro didático? Nem pensar. Não era coisa ao alcance de suas posses. Ter um caderno simples para o registro de algumas informações das diversas matérias era o máximo de que conseguiam dispor. Aí é que entrava em ação meu espírito Robin Hood. Ao encaminhar meu pedido de material didático de apoio ao setor de reprografia do Christus, sempre pedia entre oito e dez cópias a mais. Esse excedente salvava a pátria dos meus alunos da noite! Como eram em torno de 45 por turma, eu formava pequenos grupos, distribuía o parco material e tornava minhas aulas muito mais animadas e produtivas. Encerrado o tempo de aula, aquele mesmo material era recolhido para servir a outra turma. Fiz isso por muito tempo e de nada me arrependo. Subtraía um pouquinho dos que tinham muito para servir a quem um pouquinho tinha um extraordinário valor.

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