HISTÓRIA E MEMÓRIA PEDAGÓGICA (4)

HISTÓRIA E MEMÓRIA PEDAGÓGICA (4)
       Deu-se na Universidade Federal do Amazonas. Já havia retornado do doutorado na PUC de São Paulo e reassumira minhas atividades na UFAM. Como sempre, naquele semestre fiz questão de ficar com pelo menos duas turmas de calouros. Sempre achei que os iniciantes precisavam mais de um doutor do que os alunos dos períodos mais avançados. Uma dessas turmas era de Comunicação Social. Por razões que eu desconheço, os alunos de Comunicação eram muito mais agitados e inquietos do que os de Letras, o que, para mim, apesar da longa quilometragem rodada em tantas salas de aula, era um desafio a mais envolvê-los na prática da produção escrita, matéria-prima essencial para a formação de jornalistas e relações públicas. Para melhor aprimorar minhas aulas e cativar a turma, li vários livros da área de comunicação e me mantinha sempre atualizado com as últimas novidades e discussões que rolavam sobre o tema. Apesar de, em pouco tempo, aquela turma cair nas minhas graças e simpatia, vez ou outra eu precisava fazer valer a rigidez e a autoridade para controlar o ímpeto do que eu chamava de “espírito ginasiano”, próprio daquela fase de transição entre o ensino médio e a universidade. Certo dia, já no meio daquele semestre e no meio de uma aula, perdi a calma com a turma. Mas me contive em dizer qualquer coisa para lhes chamar atenção. Em silêncio, baixei a cabeça, recolhi meu material que estava sobre a mesa e me retirei da sala em passos lentos, como quem abandona o barco sem possibilidade de retorno. Logo percebi que o silêncio, aos poucos, passou a dominar o ambiente, mas prossegui firme minha caminhada. Ao final do corredor, já numa distância razoável, olhei discretamente para trás e vi a turma em polvorosa frente à sala de aula. Ensaiei um riso para mim mesmo e pensei: há de funcionar. E segui rumo à minha sala no Instituto de Ciências Humanas e Letras. Em lá chegando, sentei-me frente à mesa de trabalho, cruzei as pernas e comecei a contar bem lentamente. Quando cheguei ao número nove, ouvi as delicadas batidas na porta. Foi bater e ver! Era uma comissão que, constituída às pressas, ali estava para, humildemente, me pedir desculpas e negociar o meu retorno à sala de aula. Ouvi-os com extrema seriedade, montei uma expressão de profunda indignação e, sem perder a ternura, fui taxativo: posso até voltar outro dia, mas hoje as coisas ficam como estão. Em seguida, desfilaram palavras de carinho, respeito e admiração pela minha pessoa e, com ar circunspecto de arrependidos, bateram em retirada cabisbaixos, fechando a porta com uma delicadeza incomum. Fiquei um bom tempo a rir para mim mesmo. Das vezes em que ministrei aulas para o curso de Comunicação Social, aquela foi a turma com a qual mais construí empatia e com a qual realizei um dos mais prazerosos e inesquecíveis trabalhos de sala de aula.

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