HISTÓRIA E MEMÓRIA PEDAGÓGICA (5)

HISTÓRIA E MEMÓRIA PEDAGÓGICA (5)

       Era final da década de setenta. A ditadura civil-militar ainda deitava e rolava. O ditador de plantão chamava-se Ernesto Geisel. Eu já havia concluído a Licenciatura em Letras e dedicava minhas manhãs e tardes ao então Centro Educacional Christus do Amazonas, que funcionava na Joaquim Nabuco. Na escola, a época era boa e as ideias e iniciativas fervilhavam na cabeça. Tínhamos, eu e os colegas que dedicavam oito horas às atividades, liberdade para por em prática muitos dos nossos sonhos de início de carreira, mesmo os mais revolucionários para aqueles tempos políticos de triste lembrança. Decidi criar um cine-clube. Dei-lhe o nome de Sagarana, em homenagem a Guimarães Rosa. Funcionava em uma sala ampla, no terceiro andar. Como a escola já dispunha de um novíssimo projetor 16 milímetros, articulei-me com o marceneiro, dei-lhe as coordenadas e ele montou uma cabine toda em madeira compensada, imitando os cinemas convencionais, onde ficavam centralizados os equipamentos e o controle das luzes. Pra completar, ainda sob minha supervisão, conseguiu fabricar, de madeira também, uma bela e panorâmica tela, que me enchia de orgulho pela suntuosidade. Havia uma pequena empresa familiar, no início da Joaquim Nabuco, que alugava os filmes e cedia os cartazes. Embora as sessões acontecessem às sextas-feiras à noite, na quarta eu já anunciava, em um painel exclusivo no hall do prédio, a atração. Em pouco tempo, o cine-clube Sagarana fez sucesso, ao ponto de atrair, além dos alunos e pais, pessoas de fora da escola. Tanto quanto os filmes, o momento não menos esperado era o das discussões que aconteciam ao final de cada sessão. Formávamos um grande círculo e viajávamos em altos e demorados debates. Certa vez, consegui alugar uma cópia perfeita de “Zorba, o grego”, original em preto e branco, estrelado por Anthony Quinn e dirigido por Michael Cacoyannis. Fiz uma propaganda danada do filme. Aquela sexta-feira tinha tudo pra ser gloriosa no cine-clube Sagarana. Iniciamos a sessão, como de praxe, às 20h. Casa cheia. Gente espalhada no chão. Bom lembrar que o projecionista era eu. Mais ou menos no meio da sessão, recebo na cabine o recado de um aluno. Dois homens bateram à porta e queriam falar comigo. Sem imaginar o que poderia ser, deixei o filme rodando e fui até lá. Tomei um susto danado! Eram dois policiais federais, que se identificaram como do departamento de censura da PF, perguntando se eu tinha o certificado de liberação do filme. Nem sabia da necessidade daquilo! Então, vamos ter que interromper a sessão e confiscar os rolos de filme, disse-me um deles, com certa truculência, dando-me uma carteirada e já ameaçando entrar na sala. Pedi um tempinho, dirigi-me à cabine, interrompi a projeção, liguei as luzes, os gritos de insatisfação ecoaram na sala, rebobinei a fita, coloquei-a nas latas e, paciência, entreguei aos policiais, que se retiraram sem dar a mínima para a barulhenta plateia, ávida por querer saber dos desdobramentos das aventuras e das artimanhas de Zorba. Na segunda-feira, lá estava eu na delegacia da Polícia Federal para me explicar. Depois de alguns dias, muita burocracia e muita bronca, consegui reaver as latas de filme e devolvê-las ao distribuidor, não sem antes pagar uma multa pelo atraso. Mas o cine-clube Sagarana ainda teve uma vida longa.

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