LER OU NÃO LER: EIS A QUESTÃO

LER OU NÃO LER: EIS A QUESTÃO

Por dever de ofício, sou um atento observador do cenário de acusações que envolvem pais, professores e pedagogos com a resistência dos nossos alunos à leitura. Dizem os primeiros que a escola não tem conseguido estimular a formação de leitores, e nisso estaria a principal causa desse fracasso. Denunciam os segundos que as crianças são magnetizadas pela TV, e nisso estaria a razão do seu desinteresse pelos livros. Propagam os terceiros que os pais não acompanham a vida escolar dos filhos, e nisso estaria um importante componente a contribuir para a aversão à leitura. Profetizam outros que os brasileiros são chegados a um certo estado de ócio, e nisso estaria a explicação para o fato. E, nesse cipoal de generalizações e poucas verdades, espalham outros tantos que nossas crianças simplesmente não gostam de ler. Acredito que o tema envolve aspectos que estão aquém e além das acusações em si.

É fato, por exemplo, que a escola não tem ajudado muito. Pouquíssimas dispõem de uma biblioteca em funcionamento. Quando isso acontece, o acervo é pobre e, muitas vezes, face à carência de profissionais habilitados, a tarefa acaba sendo entregue nas mãos de curiosos ou, simplesmente, o espaço dedicado à atividade de leitura e pesquisa permanece fechado a sete chaves. As crianças podem estragar os livros. Ao lado disso, cabe ressaltar que o hábito da leitura é socialmente construído e que, por razões várias, aí incluída a sócio-econômica, se os pais não cultivam esse hábito, menos possibilidade terá a criança de desenvolvê-lo.

Não dá mais, por outro lado, para continuar acusando a TV de ser a grande vilã do desinteresse dos alunos pelos livros. Com o passar dos anos, trata-se hoje de um veículo que conquistou um importante espaço que já não é antagônico, mas parceiro do livro. Basta que essa inter-relação seja pedagogicamente capitalizada. Ao lado disso, há de se convir que bons leitores tendem a contagiar não leitores. Neste caso, será que os professores têm sido referência para tal?

No que tange à ausência dos pais em relação aos filhos na escola, não dá para separar o que faz parte de um processo, individualizando culpados. É fato, sim, que o acompanhamento dos filhos é contribuição indispensável. Mas não se pode fechar os olhos para uma outra realidade: em ambiente familiar onde o hábito da leitura é regra e os livros existem em abundância, o incentivo à formação de leitores passa a ser consequência. Entretanto, o que dizer da desigualdade social, que coloca um enorme contingente de famílias diante da cruel escolha entre um prato de comida e a compra de um jornal? Ao lado disso, como não se trata de uma ofensa, é sempre bom perguntar se os pedagogos têm dado a si boas lições de leitura.

Já no que diz respeito ao alegado ócio como responsável pela aversão do brasileiro à leitura, trata-se de uma generalização irresponsável, obtusa e carente de qualquer sustentação. Desconsidera o fato de que, no seu vasto universo de propósitos, a leitura pode ser feita por dever de ofício, por desafio, por dever escolar e acadêmico, por pesquisa, pela simples busca de informações e, inclusive, por diletantismo a serviço do próprio ócio. Ao lado disso, há que se perguntar se uma alegação dessa natureza não é uma forma de, atribuindo a culpa a um ente tão abstrato e indefinido, lavar as mãos para o desafio de buscar alternativas para o problema.

Finalmente, partir para o ataque de que nossas crianças não gostam de ler cai no vazio. Não precisa ser um grande pesquisador para constatar o quanto elas gostam de livros. A iniciativa de uma amiga professora ilustra muito bem isso. Reuniu um grupo de alunos do ensino fundamental e os levou a uma grande livraria. Em lá chegando, liberou-os entre as prateleiras. O resultado sintetiza-se no seguinte: o puro encantamento tomou conta da expressão da garotada, que se dispersou em busca dos livros de seu interesse, acomodou-se em pequenos grupos e pôs-se a devorar com enorme avidez os textos e as figuras que saltavam de cada página, a comprovar que o contato direto e estimulante com o livro tem tudo para se converter em hábito de leitura. Em outras palavras, criança gosta de ler. O que lhe falta é oportunidade e liberdade para traçar suas próprias viagens.

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