LÍNGUA E COLONIALISMO

LÍNGUA E COLONIALISMO

Geram-se tantas informações e se apagam tantas outras (e isso nada tem de gratuito!), que eu já nem me lembrava de que a Guiana Francesa, tão vizinha do nosso país, é a última colônia europeia a sobreviver na América, nos moldes dos mais retrógrados processos de colonização. Dei-me conta do fato por conta da velha mania de guardar recortes de jornais para posterior leitura. Dessa vez, deparei-me com uma entrevista com o líder sindical guianense Jean Michel Aupoint, que veio a Manaus participar do 4º Fórum Social Pan-Amazônico. Em tom de denúncia, ele ressalta que os colonizadores tornaram obrigatório o ensino do francês nas escolas, em detrimento da língua materna dos moradores da região. Frente a outras falas suas, referindo-se a formas mais explícitas de totalitarismo, como censura à imprensa, repressão física, restrição ao direito de ir e vir, militarização francesa e falta de liberdade de expressão, é possível que a questão da língua não tenha merecido a atenção devida, embora represente, para mim, a nuance mais chocante, contundente e perversa na correlação em que um povo se impõe a outro. Entender isso depende da compreensão que se tem desse fantástico fenômeno chamado linguagem.

Comumente se define a língua como um instrumento que possibilita a comunicação entre os seus falantes. No ensino fundamental e médio, esse conceito é amplamente ratificado na maioria dos livros didáticos em circulação. No ensino superior, abordagem semelhante ainda se faz presente em diversos livros acadêmicos. Herança forte da linguística estruturalista, essa perspectiva vê o código linguístico de um dado grupo social apenas como um objeto mecânico pronto, movido pela neutralidade e posto à disposição dos falantes, que dele se valem frente à necessidade de se comunicar e de se fazer entender. Restrito a tal entendimento, acaba-se dando um tom simplista a um fenômeno que, de tão complexo e marcante, representa a mais visível fronteira a separar o ser humano dos seres irracionais. É preciso, portanto, desfazer a ilusão de que a língua existe em estado natural, alheia a todas as injunções que permeiam a vida em uma dada sociedade.

Numa perspectiva mais moderna, tem-se o fenômeno da linguagem como intrinsecamente vinculado às condições sociais, históricas e ideológicas de um povo. Ou seja, além de veículo de comunicação, a língua carrega consigo todas as marcas que regulam as formações sociais e ideológicas dos seus falantes. Num esforço para ser menos acadêmico, significa dizer que a língua é o mais perfeito retrato da cultura de um povo, pois nela estão inscritas suas formas de pensar, seus conceitos, crenças, superstições, idiossincrasias, diferenças, enfim, pode-se dizer que a língua é uma espécie de impressão digital de quem a fala, daí a acurada percepção do sociólogo Pierre Bourdieu, para quem “o que fala nunca é a palavra, mas toda a pessoa social”.

Retomando, pois, as denúncias de Jean Michel Aupoint, não há como deixar de se enojar da inaceitável presença das botas sujas dos colonizadores franceses em solo guianense e solidarizar-se com os anseios de libertação de seu povo. Afinal, os brasileiros que em tempos não distantes sofreram na pele vinte e um anos de uma nefasta ditadura militar sabem o que isso representa.

Pode-se dizer, entretanto, e com alguma segurança, que o lado mais abominável do processo colonialista que ainda sobrevive no país de Aupoint não está apenas na intimidação pelas armas, na censura à liberdade de expressão, na tortura física e psicológica e em outros tantos odiosos e repugnantes expedientes totalitários. Está, sobretudo, no que representa, em longo prazo, a imposição da língua do colonizador sobre a do colonizado. Isso, sim, é cruel. De forma lenta e gradual, à medida que impiedosamente massacra e silencia a língua do povo nativo, retira-lhe o direito de pensar em sua própria língua, porque lhe impõe uma forma de pensar que não é culturalmente a sua. Não era sem razão que o poderoso império romano, ao empreender uma conquista, tinha como primeira providência tornar o latim a língua oficial dos conquistados. Ou seja, conquistava pelas armas, mas acima de tudo pelas mentes. O semiólogo Roland Barthes sintetiza muito bem esse processo, ao afirmar que “a língua não é nem reacionária nem progressista; ela é simplesmente fascista, pois o fascismo não é impedir de dizer, é obrigar a dizer”.

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