MALABARISMOS DISCURSIVOS

MALABARISMOS DISCURSIVOS

Todo cuidado é pouco. A língua, que se realiza no discurso, está sempre cheia de armadilhas de toda ordem. Vejam este exemplo com que me deparei num desses dias em dois jornais locais. Em Acrítica, dizia a manchete: “Reajuste de 10% para professores”. No Diário do Amazonas, lá estava cravado: “Prefeitura concede 10% de reajuste aos servidores da educação”. Tiremos algumas lições dos enunciados.

Em primeiro lugar, palavras a mais ou a menos não significam indiferença em relação aos sentidos. Entre dizer apenas “reajuste de 10% para professores” e “Prefeitura concede 10% de reajuste aos servidores da educação” há diferenças determinantes de envolvimento maior ou menor do sujeito, no caso o mancheteiro, com o seu enunciado. No primeiro caso, ao omitir o agente que concedeu o reajuste (a Prefeitura), o sujeito deixa de valorizar o autor da ação de conceder o reajuste, como se ela (a ação) tivesse acontecido por obra de ninguém. No segundo caso, ao tornar explícito esse agente, o sujeito não apenas dá nome ao agente da ação (a Prefeitura), como também demonstra maior relação de afinidade com esse agente, uma vez que assume sua existência.

Em segundo lugar, ao destacar na manchete que o reajuste foi “para professores”, no caso de Acrítica, o sujeito do discurso valoriza o fato da ação ter-se voltado para a classe de professores, mas constrói uma meia-verdade, o que só é explicitado no lead da matéria, em fonte menor: o reajuste vale para professores e administrativos. Foi, portanto, geral. Se admitirmos que o leitor tenha se contentado em ler apenas a manchete, ele terá absorvido somente a metade de duas verdades. Por outro lado, ao destacar na manchete que o reajuste foi concedido “aos servidores da educação”, caso do Diário do Amazonas, o sujeito do discurso já evidencia a abrangência do benefício, o que é ratificado no lead (professores e administrativos). Se admitirmos que o leitor tenha se contentado em ler apenas a manchete, ele terá absorvido a verdade por inteiro. Aparentemente irrelevantes, são detalhes discursivos que podem fornecer boas pistas de a quantas andam as relações das duas redações com a administração do prefeito

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