MANOBRAS DIDÁTICAS

MANOBRAS DIDÁTICAS

Ao lado da produção escrita, o trabalho com textos representa o componente mais importante a ser explorado em um livro didático. É o exercício da busca e do acúmulo de informações. Neste caso, trata-se de atividade essencial para alimentar a prática da boa redação, afinal, quanto mais se tem conhecimento dos fatos, mais segurança se consegue no ato de escrever. É, também, o exercício da leitura de natureza lúdica. Neste caso, descobre-se que é possível, na prática, rimar o ato de ler com a busca do prazer. É, ainda, o exercício da leitura de natureza crítica. Neste caso, o espaço linear do texto passa a ser apenas objeto de referência para o cotejo com outros textos, com outras realidades, com outras experiências vividas, o que permite ao leitor desvelar os propósitos muitas vezes escondidos sob a aparência das palavras e construir, paralelamente, outros textos que atendam as suas expectativas ideológicas. É, finalmente, o exercício da seletividade. Neste caso, o leitor desenvolve mecanismos que lhe permitem, nesse mundo de tamanha concorrência pela hegemonia da informação, suficiente agilidade e discernimento para privilegiar aquilo que objetivamente mais lhe interessa.

Essa perspectiva expressa a minha crença de que o texto deve ser a base de todo e qualquer trabalho desenvolvido no espaço escolar, principalmente na área de Língua Portuguesa. Tomando-o sempre como centro de referências, penso que o professor dispõe de um material extremamente valioso para desenvolver suas múltiplas atividades didáticas de forma abrangente e enriquecedora, sem contar com as inúmeras possibilidades de exploração da transversalidade, princípio tão inovador recomendado nos Parâmetros Curriculares Nacionais. Não é o que acontece, entretanto, quando esse propósito é desvirtuado e o texto é esfacelado, passando a ser utilizado exclusivamente como pretexto para determinados fins específicos e socialmente pouco louváveis.

Num desses dias, folheando um livro didático largamente utilizado por professores do ensino médio, comprovei esse descaminho. Bastou deter-me um pouco em um de seus módulos. Nele, sob o título pomposo de “Interpretação de textos”, o autor apresenta ao aluno o fragmento de um texto de Dalton Trevisan, um poema de Carlos Drummond de Andrade e algumas tirinhas extraídas de jornais. Solicita a ele que leia atentamente o material e, na sequência, estabelece como proposta de abordagem as seguintes questões: “Assinale, dentre os trechos a seguir, aqueles que contêm um predicativo”; “Identifique os predicativos nas tirinhas abaixo”; “Destaque do texto um predicativo do objeto”; “Assinale o vocábulo que não é predicativo”. Como se pode ver, o texto é usado unicamente como pretexto para a exploração da nomenclatura gramatical, estratégia que empobrece a abordagem, uma vez que coloca o texto a serviço da gramática e não a gramática a serviço do texto.

Por outro lado, ao colocar em evidência, para o professor e o aluno, a exploração de textos, o autor do livro didático acaba criando apenas a ilusão de um trabalho inovador. Na realidade, entretanto, cai no mesmo equívoco de tantos outros, que privilegiam o estudo da nomenclatura e, por tabela, transformam a gramática num fetiche, estudando-a como um fim em si, o que caracteriza uma elementar incongruência do ponto de vista didático-pedagógico e linguístico.

Em resumo, parece-me lícito dizer que se está diante de um caso de propaganda enganosa, delito muito bem tipificado no Código de Defesa do Consumidor.

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