MAZELAS DO LIVRO DIDÁTICO*

MAZELAS DO LIVRO DIDÁTICO*

O livro didático é um instrumento auxiliar da maior relevância na mediação do processo pedagógico. Como roteiro de trabalho, ele pode oferecer a alunos e professores uma sequência programática adequada aos interesses da disciplina. Como elemento facilitador do ensino, pode propor caminhos didáticos que reduzirão a distância entre os objetivos a serem alcançados pelo trabalho do professor e o desejável envolvimento do aluno. Como peça de uma dada formulação discursiva e, portanto, política, pode agregar alunos e professores em torno da busca de ideais que acenem para a libertação, para a construção de um apurado senso crítico e para a consolidação do exercício da cidadania.

Mas essas possibilidades não são inerentes nem comuns aos livros didáticos, que, no geral, apresentam problemas de variadas ordens. No caso da área de Língua Portuguesa, por exemplo, o que continua predominando são propostas que negam os extraordinários avanços no campo da Linguística Aplicada, muitos dos quais já consolidados nos Parâmetros Curriculares Nacionais; são procedimentos que se distanciam da realidade linguística do aluno, contribuindo para a disseminação do preconceito; são práticas que degradam e até debocham do conhecimento empírico de mundo do aluno, criando barreiras entre a escola e a vida, como se fossem entes autônomos; são estratégias que privilegiam uma abordagem gramatiqueira, deixando de lado o caráter social do fenômeno, responsável pela heterogeneidade, pela diversidade e pela riqueza de uma língua; são procedimentos de leitura que cristalizam as verdades de um texto e limitam a criatividade do aluno na criação de outras verdades, transitando pelo inaceitável terreno ideológico do fetiche. Enfim, no caso específico do ensino de Língua Portuguesa, o livro didático continua sendo uma temeridade e, portanto, um grande desafio para os estudiosos da área.

Só para resgatar um dos aspectos acima referidos, já é consenso entre os linguistas, e não é de hoje, que um ensino produtivo da variedade culta da Língua Portuguesa não pode ter como propósito o estudo da gramática voltado para a própria gramática. Em assim agindo, cria-se um círculo vicioso no interior do qual ensina-se gramática normativa e cobra-se gramática normativa.

Na maioria dos livros didáticos, incluindo-se aqueles distribuídos na rede pública estadual, exercícios decorrentes da abordagem gramatical restringem-se a pedir ao aluno que identifique, assinale, marque, preencha, grife, classifique etc. Bem a propósito, é muito comum ouvir estudantes dizerem que “detestam língua portuguesa”. Ora, a eles é passada a convicção de que o estudo da língua se resume àquelas exigências chatas, maçantes e complicadas que o professor lhes impõe. Ou seja, não se coloca o estudo das questões gramaticais a serviço do efetivo uso da chamada variedade padrão da língua. Com isso, tolhe-se a criatividade do aluno e se empobrecem os propósitos firmados nos Parâmetros Curriculares Nacionais para o ensino da língua, que, dentre outras ponderações sobre o assunto, registram que a gramática, “ensinada de forma descontextualizada, tornou-se emblemática de um conteúdo estritamente escolar, do tipo que só serve para ir bem na prova e passar de ano – uma prática pedagógica que vai da metalíngua para a metalíngua por meio de exemplificação, exercícios de reconhecimento e memorização de nomenclatura”.

Saber nomenclatura ou especializar-se na classificação dos vários elementos gramaticais não resulta, necessariamente, em um bom desempenho do falante na sua língua de cultura. A consequência mais provável disso, como se constata em alunos recém ingressos nos cursos superiores, é o falante ser capaz de responder intrincadas perguntas gramatiqueiras e se mostrar inábil para expressar-se com fluência, quer seja na modalidade falada quer seja na modalidade escrita da sua própria língua. Em outros termos, deve-se distinguir a gramática da gramatiquice, coisa que os livros didáticos, no geral, não levam em consideração.

Pelo que pode reverter em graves consequências, quando mal elaborado, e pela sua indiscutível importância no ensino-aprendizagem, o livro didático deveria merecer uma extraordinária atenção de todos os atores envolvidos no processo, aí incluídos pais, alunos, professores, pedagogos e órgãos gestores da educação.

( * ) Degustação do livro com o mesmo título a ser lançado em maio pela Editora Valer.

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