O CAÇADOR DE ABSURDOS

O CAÇADOR DE ABSURDOS

Estou-me tornando um contumaz crítico da suspeita qualidade de muitos livros didáticos. É preocupante como eles circulam impunemente por tantas escolas de primeiro e segundo graus e são manuseados com entusiasmo por milhares de professores. Decorrente disso, tornam-se referência respeitada por milhares e milhares de alunos que, iludidos pela credibilidade do lugar social de onde falam seus mestres, vêm nesses livros o caminho da salvação do processo formal de aprendizagem e se esmeram para dar conta de todas as questões neles propostas como exercícios. Não, não se trata de implicância de minha parte. Trata-se, creio, de pura coincidência. Cai um desses livros em minhas mãos, em geral trazido por algum ex-aluno ou retirado por mim de alguma estante de alguma escola, abro-o inadvertidamente em alguma página e lá me vem a indignação com absurdos que ferem os mais elementares princípios científicos e pedagógicos.

Nessas mesmas circunstâncias, dias desses novamente estacionei a vista na clássica unidade dedicada a envolver o aluno com a interpretação de textos. Devo advertir, para não parecer idéia fixa de minha parte, que vejo como de extraordinária importância um trabalho didático voltado para esse fim. Afinal, é nessa oportunidade que o estudante, pela prática da leitura e da análise, vai se dando conta das artimanhas do discurso, vai consolidando a formação do seu senso crítico e desenvolvendo importantes habilidades discursivas.

Ao simular, entretanto, o que deveria ser o trabalho de interpretação de um texto, o autor do livro didático a que me referi anteriormente comete equívocos que considero primários. Vejamos alguns. Após apresentar um pequeno texto de Dalton Trevisan, solicita a sua atenta leitura e ataca o estudante com a seguinte pergunta: “Qual é, na sua opinião, a mensagem que o autor pretendeu passar nessa crônica?” Há duas absurdas contradições na pergunta. A primeira é de natureza interna, no âmbito do próprio enunciado. Deseja-se, ao mesmo tempo, que o aluno dê sua opinião sobre os sentidos do texto e que dê sua opinião sobre aquilo que o autor quis passar no texto! A segunda é de natureza discursiva, extrapola o texto. Trata-se de uma tarefa simplesmente impossível querer que o aluno saiba “o que o autor pretendeu passar nessa crônica”. Seria preciso, no mínimo, que Dalton Trevisan estivesse por perto! Mesmo assim a questão não estaria resolvida.

A Semântica do Discurso já enterrou há muito tempo essa estapafúrdia idéia de um texto trazer uma mensagem. Seria preciso que a linguagem fosse transparente. Ora, quando se elabora um texto, seja de qualquer natureza, a ele são atribuídos sentidos por quem o escreve. Por outro lado, ao cair nas mãos de qualquer leitor, esse mesmo texto se torna referência para a construção de outros sentidos que nem sempre coincidem com aqueles preconizados por quem o escreveu. Isso porque o dizer não é algo pronto, previamente dado, cristalizado. Há um sem número de fatores (sociais, históricos, ideológicas, discursivos etc.) que não estão visíveis no texto, mas determinam a construção de outros tantos sentidos. E isso está muito bem posto nos PCN: “A leitura é um processo no qual o leitor realiza um trabalho ativo de construção do significado do texto, a partir dos seus objetivos, do seu conhecimento sobre o assunto, sobre o autor, de tudo o que ele sabe sobre a língua: características do gênero, do portador, do sistema de escrita etc. Não se trata simplesmente de extrair informação da escrita, decodificando-a letra por letra, palavra por palavra. Trata-se de uma atividade que implica, necessariamente, compreensão na qual os sentidos começam a ser constituídos antes da leitura propriamente dita”.

É no mínimo paradoxal uma proposta didática que convide o estudante a percorrer os fantásticos caminhos da interpretação de textos, mas limite essa perspectiva a uma estrada de mão única que direcione a compreensão dos sentidos da leitura para uma única verdade, e instaure a crença de que o discurso é um fenômeno marcado pela homogeneidade. O risco dessa armadilha é levar o leitor a um estado de passividade tal, que o obrigue a acatar as verdades postas pelo autor do texto, anule a sua própria história de vida e a sua condição de sujeito ativo em qualquer processo de interlocução.

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