O LUGAR SOCIAL DE SEVERINO

O LUGAR SOCIAL DE SEVERINO

O que fala não é apenas a palavra, mas o todo social. Traduzindo em miúdos, a força de sentido e de verdade de uma manifestação linguística não está amparada somente nas palavras, orações ou períodos de quem enuncia, como acreditam os gramatiqueiros de plantão. Dentre o conjunto de fatores que balizam e sustentam o que dizemos em quaisquer circunstâncias, o lugar social que ocupamos é determinante e refletirá sempre uma certa forma de correlação de forças. Mas, para melhor entendermos esse princípio, faz-se necessário apelar para o senso didático de professor.

Imaginemos um leigo, como a grande maioria dos motoristas, que precise levar seu carro a uma oficina. Em lá chegando, dirige-se ao mecânico de sua confiança, que, após receber informações genéricas sobre os possíveis problemas, passa a examinar o motor do veículo. Em seguida, apresenta ao cliente o diagnóstico e lhe passa a relação de peças a serem compradas. Outros profissionais que se julgam mais experientes simplesmente ouvem o breve relato do proprietário e já partem para a prescrição dos itens de reposição. Tanto no primeiro quanto no segundo caso, não raro o dono do veículo tem o diagnóstico como correto e atende religiosamente as solicitações feitas. A que se deve isso? Não ao simples fato do mecânico dizer que o motor tem este ou aquele problema, mas, acima de tudo, por estar falando do lugar social de quem é reconhecido como tendo domínio na sua área profissional. Como tal, suas palavras não valem em si e por si. Assumem maior valor de verdade por estarem sendo ditas exatamente por ele.

Esse tipo de situação se reproduz em todas as correlações de forças sociais. Se você é fumante, dará pouco ou nenhum crédito ao amigo que o amedronta dizendo que, se não parar de fumar, terá pouco tempo de vida. Mas, se as mesmas palavras forem ditas por um conceituado pneumologista, você tremerá nas bases e possivelmente largará o cigarro. Se um panfleto distribuído na rua lhe informa que o mundo acabará amanhã, você achará que é coisa de quem não tem o que fazer. Mas, se a mesma notícia for veiculada pelo Jornal Nacional da Rede Globo, você poderá entrar em pânico. Se, consultado por seu filho, você diz que a resposta do exercício escolar é de tal maneira, ele ficará em silêncio. Mas, se a professora (que ele chama de tia) disser que a resposta é outra, o crédito será para ela. Enfim, o lugar social de onde se fala acaba dando status de verdade ao que se diz.

Nessas alturas, algum leitor já se terá perguntado o que tem a ver esta didática reflexão com o título deste texto. Explico-me. O presidente da Câmara Federal fala do terceiro lugar social na hierarquia da República. Portanto, o que ele diz todos os dias tem tudo para repercutir como sendo verdade, nos mais remotos lugares do país, em milhões de ouvidos. Pois a Câmara Federal elegeu em 2005 como presidente um senhor chamado Severino Cavalcante, de triste memória. Vejamos algumas de suas declarações à época ao Jornal Folha de S. Paulo: “A vida sexual tem que começar no casamento. Eu casei mais ou menos virgem”. Odiosa hipocrisia construída em cima do esfarrapado e falso moralismo de que os outros devem fazer o que a gente manda, não o que a gente faz. “A mulher tem que ser virgem, pura. Já o homem quer aprender a fazer o serviço com quem tiver disposta a ser professora”. Conectada à declaração anterior, expressa uma clara apologia ao machismo, além de expressar puro deboche ao nobre exercício do magistério. “Se eu tivesse um neto gay, trataria com muito carinho, mas faria de tudo para que ele não continuasse a ser gay”. Na contramão da história, exala um acentuado preconceito que contrasta com a luta, já mundialmente reconhecida, dos movimentos progressistas em prol da afirmação da liberdade e da plena cidadania.

Em suma, quer-se com isso evidenciar que, escapando de um crivo analítico mais apurado, são conceitos que, ditos do lugar social de onde falava o então deputado Severino Cavalcante – a presidência da Câmara dos Deputados –, ganham um indiscutível peso de verdade, com repercussões sociais não difíceis de se imaginar.

Share on Facebook0Tweet about this on TwitterShare on Google+0Pin on Pinterest0Email this to someonePrint this page