O PODER DA SALA DE AULA

O PODER DA SALA DE AULA

É impossível negar a força determinante do que é transmitido no espaço do que Althusser bem definiu como aparelho ideológico escolar. Isso se deve, sobretudo, ao fato de, apesar de todas as suas precariedades e limitações materiais, tratar-se de um lugar social de extrema credibilidade. Nele, a própria configuração física do espaço concorre para tal compreensão: os alunos ficam sentados em pequenas e apertadas carteiras previamente enfileiradas, enquanto o professor dispõe de uma mesa grande, cadeira diferente e mais confortável, quadro, pincel, e liberdade de movimentos. Além disso, tem-se na figura do professor, para todos os efeitos, o detentor da sabedoria e do conhecimento, sem contar com a maior de todas as prerrogativas: a do direito efetivo ao uso da palavra, o que acaba sendo apenas circunstancial aos alunos. Tal cenário é revelador de que nada do que acontece no espaço escolar é gratuito. Tudo é carregado de sentidos.

Sob tal perspectiva, é preciso vislumbrar que esse valioso espaço é lugar não apenas de reprodução como também de transformação. Significa dizer que estará sempre a serviço de diferentes interesses. No caso específico de um professor de Língua Portuguesa, excetuadas tantas outras particularidades, as relações assumem duas dimensões.

Na primeira, os alunos podem estar diante de um profissional contemplativo e acomodado. Cumpre religiosamente suas atividades, respeitando a sequência e cada item do conteúdo programático da disciplina, sem deixar de fora nada do que foi previamente estabelecido. Cuida para que todas as páginas do livro didático sejam visitadas pelos alunos e tem nesse instrumento pedagógico a sua única bússola, seguindo, portanto, rigorosamente todos os passos e aconselhamentos dados pelo autor. Considera o aluno uma tábua rasa. Ora, se está na escola é porque nada sabe e o seu papel, portanto, deve-se resumir a ouvir o mestre. Ao lado disso, não se descuida da prática docente centrada exclusivamente no ensino da gramática normativa, afinal ele acredita piamente que está ali para ensinar a Língua Portuguesa, e os alunos, para aprendê-la. Em síntese: por mais inofensiva que se mostre aos nossos olhos, essa pedagogia da exclusão está a serviço de determinados interesses, ainda que o professor por ela responsável não se dê conta disso.

Na segunda dimensão, os alunos podem estar diante de um profissional inquieto e ousado. Tem diante de si um conteúdo programático estabelecido, mas não o considera sagrado e intocável. O que determina o ritmo da abordagem, a ênfase em determinados aspectos e o seu cumprimento integral ou não é o diagnóstico que, a cada dia, constrói do desempenho discente. O livro didático é apenas uma referência, não uma bíblia a ser religiosamente seguida. Nesse caso, avalia, sempre com a participação dos alunos, a qualidade e os eventuais propósitos dos textos, cuidando para que não prevaleçam somente a vontade e os sentidos dados pelo autor e para que as idéias postas saltem do livro para a vida, passando sempre pelo crivo da contextualização. Considera que o aluno, ao chegar à escola, já domina o seu código linguístico, uma vez que a língua materna lhe foi socialmente transmitida. Diante disso, o professor tem consciência de que deve respeitar o uso da variedade coloquial que o falante já traz de casa e da vida, cabendo-lhe o desafio de criar condições didático-pedagógicas para que, a partir daí, o aluno vislumbre e pratique o uso da chamada variedade padrão, aquela que é formalmente trabalhada na escola. Ao lado disso, privilegia a leitura e a produção escrita como práticas sociais que extrapolam o espaço escolar e, portanto, têm muito mais a ver com a vida e a construção da cidadania. Em síntese: essa pedagogia da libertação também está a serviço de determinados interesses, só que mais nobres, porque inclusiva. Afinal, abre caminhos para o aluno se assumir como sujeito crítico e participante em relação ao mundo que o cerca.

Entre uma e outra dimensão, não se deve cair na ingenuidade de achar que a escola é autônoma em relação às idéias dominantes que circulam no universo social. Não se deve abdicar, entretanto, da convicção de que a sala de aula é um espaço apropriado para se gerar pequenas e silenciosas revoluções.

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