O SENTIDO ESCORREGADIO DAS PALAVRAS

       Existe a crença quase generalizada de que as palavras que compõem o universo linguístico de um idioma são transparentes. No sentido de que, na perspectiva do falante, cada uma delas representa, com toda exatidão, apenas aquele significado que lhe foi socialmente passado. Assim, ao dirigir uma dada frase a alguém, esse mesmo falante acredita piamente que os significados dela retidos em sua mente serão exatamente os mesmos a serem captados pela outra pessoa. Daí ser comum, ao longo de uma conversa em que um dos lados entende diferentemente o que está sendo dito, uma das pessoas falar: “Eu fui muito claro! Não entendeu porque não quis!” Ledo engano. A coisa não se dá bem dessa maneira. Está-se diante do que os estudiosos do discurso chamam de ilusão do falante.

       Para entendermos essa volatilidade das palavras, é preciso inicialmente estabelecer uma diferença entre significado e sentido. No primeiro caso, admite-se que as palavras têm um significado de base, aquele que lhe foi atribuído em decorrência do que Saussure chamou de convenção tácita entre os falantes de uma língua. No segundo, entretanto, esse mesmo significado pode adquirir uma infinidade de nuances, muitas das quais podem até ganhar autonomia semântica e perder o vínculo com a sua base. Falamos, então, de um dado significado que, em diferentes circunstâncias, assume diferentes efeitos de sentido.

       A que se deveria esse fenômeno, se todos nós, brasileiros, falamos o mesmo código que se chama Língua Portuguesa? É bem verdade que a chamada língua materna é uma só, mas os falantes fazem uso dela de acordo com o interesse e as conveniências ditados pelo grupo social a que pertencem. Dito de outro modo, a base linguística de uma palavra é a mesma para todos os falantes, mas os processos discursivos responsáveis pela construção dos diferentes sentidos são determinados pelas formações sociais e ideológicas que norteiam o conhecimento de mundo de um determinado grupo social. Queremos, com isso, dizer que a mesma heterogeneidade que caracteriza as relações sociais também caracteriza as relações discursivas. Convenhamos, por exemplo, que a expressão “fulano está passando por dificuldades financeiras” apresenta uma só base linguística, mas não tem o mesmo sentido para quem, nessa situação, não pode comprar um pãozinho para matar a fome e para quem não pode sair em férias pela Europa! É nesse aspecto que, apesar de falarmos a mesma língua, nós a trabalhamos de acordo com os interesses do grupo social a que pertencemos.

       Esse fenômeno linguístico se particulariza para universos menores. Para ficarmos num só exemplo, os sentidos construídos para uma determinada palavra na área jurídica não são os mesmos para ela construídos nas áreas de filosofia, sociologia ou comunicação social, apesar da base linguística ser exatamente a mesma. Ou seja, o sentido é construído a partir do lugar social de onde se fala. Diferentemente do simplismo a que se possa reduzir, essa heterogeneidade da linguagem representa o que há de mais belo e extraordinário na vida do ser humano, pois aí está situado o incondicional espaço de construção da sua liberdade.

       É por essas e outras que todos nós estamos sujeitos às armadilhas semânticas da língua. Afinal, de que se alimenta o fazer jurídico, por exemplo, senão da interpretação da base linguística daquilo que é dito?

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