O SUPERFICIAL E O RESTRITO NO ENSINO DA REDAÇÃO

Persegue-me a preocupação com o ensino voltado para o que costumo chamar de desafios da produção escrita. Sei que isso envolve questões preliminares que remontam às séries iniciais do ensino fundamental e que precisam ser encaradas sem demora por pesquisadores e professores da área. Ultimamente, entretanto, tenho voltado minha atenção de pesquisador para as três séries do ensino médio, justamente aquelas que antecedem a entrada do estudante no curso superior. Isso se deve à constatação de que, mesmo submetidos às provas do Enem e do vestibular, apenas uma parcela muito pequena de alunos consegue, e a duras penas, estruturar a contento o registro de suas idéias na modalidade escrita de sua língua materna. Diante do fato, por muito tempo, como professor da Universidade Federal do Amazonas, operei em duas frentes: tentei suprir tais carências, desenvolvendo com meus alunos calouros uma série de atividades didático-pedagógicas que considero inovadoras e voltadas exclusivamente para a produção escrita; e, simultaneamente, busquei, na análise de alguns livros didáticos por eles usados no ensino médio, possíveis respostas para suas fragilidades no campo da escrita. Com isso, penso ter conseguido avançar mais um pouco em minhas descobertas e reforçado minhas convicções.

Parto aqui do princípio de que o ensino médio exige um estudo mais verticalizado de conteúdos. Assim, já não é possível ficar na superficialidade, apresentando ao aluno conceitos genéricos que não têm sustentação teórica e que, portanto, pouco contribuem com o efetivo aprimoramento da competência do complexo processo de aprendizagem que envolve o ato de redigir um texto. Neste caso, não é recomendável, para tomar um dentre vários exemplos, um livro didático definir para o aluno que dissertar é simplesmente “defender uma idéia, apresentar uma tese sobre um tema qualquer”. Disso decorrem três problemas: (i) É superficial, (ii) restringe o conceito e (iii) passa ao estudante a falsa compreensão da existência de textos puros, o que contraria os mais elementares estudos no campo da chamada semântica discursiva.

(i) É superficial, porque deixa de explicitar que a dissertação é uma prática discursiva exercida pelo falante mesmo a cada momento distenso de interlocução e não apenas nas situações formais exigidas pelo professor. É superficial, também, porque passa ao estudante a falsa crença da facilidade e omite o fato de que, quando formalizado por escrito, o trabalho dissertativo carece de uma certa engenharia de construção e exige pormenores outros que lhe dão maior consistência.

(ii) Restringe o conceito, porque apaga a informação de que o ato de dissertar é, discursivamente falando, inerente à linguagem e porque não traduz didaticamente a compreensão de que o falante de uma dada língua é marcado pelo horizonte social do seu grupo, o que implica dizer que o seu discurso sempre carregará a orientação da sua formação social, ideológica e discursiva.

(iii) Passa a certeza da existência de textos puros, porque não esclarece que as formas de composição do texto escolarmente sistematizadas – dissertação, descrição, narração e argumentação – são exploradas separadamente apenas por conveniência metodológica, mas em essência inexistem como gêneros autônomos. Ou seja, um texto pode ser relevantemente dissertativo, mas atravessado por marcas descritivas, narrativas e argumentativas. Outros arranjos são sempre possíveis. Acrescente-se a isso que “um escritor competente é alguém que, ao produzir um discurso, conhecendo possibilidades que estão postas culturalmente, sabe selecionar (a predominância) do gênero no qual seu discurso se realizará, escolhendo aquele que for apropriado a seus objetivos e à circunstância enunciativa em questão”, conforme preconizam os Parâmetros Curriculares Nacionais para a área de Língua Portuguesa.

Tais perspectivas apontam, portanto, para a necessidade de pragmatizar o estudo da produção de textos, evitando-se, a todo custo, a escolarização do tema, prática corriqueira que tem colocado o trabalho de qualquer professor sempre na vanguarda do atraso, uma vez que privilegia certos dispositivos didáticos em detrimento de uma maior interação entre a escola e a vida.

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