OS DESAFIOS DA ESCRITA E O ATRASO DA DIDÁTICA

OS DESAFIOS DA ESCRITA E O ATRASO DA DIDÁTICA

Estou convencido de que o maior desafio dos professores de Língua Portuguesa continua sendo a busca de alternativas pedagógicas que possam quebrar a resistência dos estudantes em aprimorar a estruturação mais competente de seus textos. Esse fato, que se configura como crise há décadas, pode ser indistintamente constatado nos diferentes níveis escolares. É o aluno do ensino fundamental, que não consegue articular duas ou três frases, dando-lhes noção de conjunto; é o aluno do ensino médio, que encontra dificuldades para alinhavar idéias, dando-lhes o mínimo de unidade semântica; é o universitário, que, embalado pela aprovação no vestibular, supõe escrever bem, mas produz verdadeiras colchas de retalhos independentes entre si; enfim, é o professor, que vive a exigir qualidade nos textos de seus alunos, mas estranhamente nunca partilha com eles a sua produção escrita. Como consequência natural desse efeito dominó, não é difícil imaginar que a situação é grave, também, em outras instâncias.

É diverso e complexo o quadro de fatores, responsáveis por essa crise, que precisam ser sistematizados e estudados, mas um já não me deixa dúvidas de sua participação: trata-se da inadequação pedagógica com que muitos livros ditos didáticos exploram esse tema.

Dia desses, fiquei com o meu sentimento de leitor e professor indignado. Caiu-me nas mãos, por obra de quem já não me lembro, um certo livro didático destinado à segunda série do ensino médio. Desses engendrados a toque de caixa e distribuídos aos alunos da rede pública. Com a curiosidade aguçada pelo meu interesse na área, fiz uma breve escala no sumário e, em seguida, fui diretamente ao capítulo dedicado à redação. Só tive raiva. E esclareço o porquê.

É pedagogicamente incompreensível que um livro didático que se proponha a familiarizar o estudante com a difícil prática da produção escrita apresente como elemento inicial motivador o soneto “Língua Portuguesa” de Olavo Bilac. De um lado, tem-se um gênero textual cujas técnicas de compreensão e elaboração exigem particulares e complexos conhecimentos no campo da teoria literária. Afora isso, distancia-se do chamado texto padrão, dotado de mecanismos estruturais específicos didaticamente apropriados que oferecem ao estudante suportes necessários para compreender os processos que envolvem o ato de redigir. De outro lado, tem-se, ainda, um gênero textual cuja linguagem, além de estranha e fora de nosso contexto sócio-histórico, distancia-se do moderno padrão de uso do português falado no Brasil. Sem contar com o fato de que, para esse caso, textos de escritores clássicos mostram-se artificiais, pois pouco ou nada têm a ver com a experiência de vida do estudante.

É, também, incompreensível um livro didático apagar a informação básica de que o ato de redigir tem a ver com a idéia de texto, que, por sua vez, analogicamente remete à idéia de tecido, malha etc. Nestes termos, é improdutivo desenvolver um trabalho voltado para a produção escrita sem explorar exaustivamente, sempre tendo como paradigma textos completos, o que os estudiosos da Linguística Textual denominam de elementos básicos da textualidade, responsáveis pelo que se pode chamar de alma de qualquer texto que se julgue bem escrito e, portanto, de compreensão acessível ao leitor. Afinal, “o trabalho com produção de textos tem como finalidade formar escritores competentes capazes de produzir textos coerentes, coesos e eficazes”.

Penso que, nos termos apontados acima, em vez de atuar como instrumento facilitador do maior de todos os desafios da escola, o livro didático impõe entraves que não só comprometem o trabalho do professor de Língua Portuguesa como também desestimulam o estudante, que passa a alimentar a falsa crença de que escrever é um dom divino, coisa apenas para grandes poetas e alguns poucos iluminados. Isso sem contar com o apagamento do princípio elementar de que “formar escritores competentes supõe uma prática continuada de produção de textos na sala de aula, situações de produção de uma grande variedade de textos de fato (grifo nosso) e uma aproximação das condições de produção às circunstâncias nas quais se produzem esses textos”, conforme registrado nos Parâmetros Curriculares Nacionais.

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