REALIDADE E FICÇÃO LINGUÍSTICA

REALIDADE E FICÇÃO LINGUÍSTICA

       Liga-me um amigo jornalista em quase desespero. Estava diante daquela hora frenética e crucial nas redações. Era preciso fechar a matéria e estava às voltas com o que se pode diagnosticar de crise linguístico-existencial. Tento esclarecer: ao buscar inspiração final para a elaboração de seu texto, recolheu-se a um canto da redação para ler a coluna do Millor Fernandes, publicada em uma certa revista semanal. Para sua surpresa e início de desespero (não do Millor, mas do meu amigo, claro), lá estava cravado o plural de “gol” como sendo “gous” (Isso mesmo, com “us” no final!). Imediatamente, correu de volta ao seu texto e não deu outra: Continue lendo

MAZELAS DO LIVRO DIDÁTICO*

MAZELAS DO LIVRO DIDÁTICO*

O livro didático é um instrumento auxiliar da maior relevância na mediação do processo pedagógico. Como roteiro de trabalho, ele pode oferecer a alunos e professores uma sequência programática adequada aos interesses da disciplina. Como elemento facilitador do ensino, pode propor caminhos didáticos que reduzirão a distância entre os objetivos a serem alcançados pelo trabalho do professor e o desejável envolvimento do aluno. Como peça de uma dada formulação discursiva e, portanto, política, pode agregar alunos e professores em torno da busca de ideais que acenem para a libertação, para a construção de um apurado senso crítico e para a consolidação do exercício da cidadania. Continue lendo

MALABARISMOS DISCURSIVOS

MALABARISMOS DISCURSIVOS

Todo cuidado é pouco. A língua, que se realiza no discurso, está sempre cheia de armadilhas de toda ordem. Vejam este exemplo com que me deparei num desses dias em dois jornais locais. Em Acrítica, dizia a manchete: “Reajuste de 10% para professores”. No Diário do Amazonas, lá estava cravado: “Prefeitura concede 10% de reajuste aos servidores da educação”. Tiremos algumas lições dos enunciados. Continue lendo

MANOBRAS DIDÁTICAS

MANOBRAS DIDÁTICAS

Ao lado da produção escrita, o trabalho com textos representa o componente mais importante a ser explorado em um livro didático. É o exercício da busca e do acúmulo de informações. Neste caso, trata-se de atividade essencial para alimentar a prática da boa redação, afinal, quanto mais se tem conhecimento dos fatos, mais segurança se consegue no ato de escrever. É, também, o exercício da leitura de natureza lúdica. Neste caso, descobre-se que é possível, na prática, rimar o ato de ler com a busca do prazer. É, ainda, o exercício da leitura de natureza crítica. Continue lendo

LÍNGUA E COLONIALISMO

LÍNGUA E COLONIALISMO

Geram-se tantas informações e se apagam tantas outras (e isso nada tem de gratuito!), que eu já nem me lembrava de que a Guiana Francesa, tão vizinha do nosso país, é a última colônia europeia a sobreviver na América, nos moldes dos mais retrógrados processos de colonização. Dei-me conta do fato por conta da velha mania de guardar recortes de jornais para posterior leitura. Dessa vez, deparei-me com uma entrevista com o líder sindical guianense Jean Michel Aupoint, que veio a Manaus participar do 4º Fórum Social Pan-Amazônico. Em tom de denúncia, ele ressalta que os colonizadores tornaram obrigatório o ensino do francês nas escolas, em detrimento da língua materna dos moradores da região. Continue lendo

HISTÓRIA E MEMÓRIA PEDAGÓGICA (5)

HISTÓRIA E MEMÓRIA PEDAGÓGICA (5)

       Era final da década de setenta. A ditadura civil-militar ainda deitava e rolava. O ditador de plantão chamava-se Ernesto Geisel. Eu já havia concluído a Licenciatura em Letras e dedicava minhas manhãs e tardes ao então Centro Educacional Christus do Amazonas, que funcionava na Joaquim Nabuco. Na escola, a época era boa e as ideias e iniciativas fervilhavam na cabeça. Tínhamos, eu e os colegas que dedicavam oito horas às atividades, liberdade para por em prática muitos dos nossos sonhos de início de carreira, mesmo os mais revolucionários para aqueles tempos políticos de triste lembrança. Decidi criar um cine-clube. Continue lendo

HISTÓRIA E MEMÓRIA PEDAGÓGICA (4)

HISTÓRIA E MEMÓRIA PEDAGÓGICA (4)
       Deu-se na Universidade Federal do Amazonas. Já havia retornado do doutorado na PUC de São Paulo e reassumira minhas atividades na UFAM. Como sempre, naquele semestre fiz questão de ficar com pelo menos duas turmas de calouros. Sempre achei que os iniciantes precisavam mais de um doutor do que os alunos dos períodos mais avançados. Uma dessas turmas era de Comunicação Social. Por razões que eu desconheço, os alunos de Comunicação eram muito mais agitados e inquietos do que os de Letras, o que, para mim, apesar da longa quilometragem rodada em tantas salas de aula, era um desafio a mais envolvê-los na prática da produção escrita, matéria-prima essencial para a formação de jornalistas e relações públicas. Para melhor aprimorar minhas aulas e cativar a turma, li vários livros da área de comunicação e me mantinha sempre atualizado com as últimas novidades e discussões que rolavam sobre o tema. Apesar de, em pouco tempo, aquela turma cair nas minhas graças e simpatia, vez ou outra eu precisava fazer valer a rigidez e a autoridade para controlar o ímpeto do que eu chamava de “espírito ginasiano”, próprio daquela fase de transição entre o ensino médio e a universidade. Certo dia, já no meio daquele semestre e no meio de uma aula, perdi a calma com a turma. Mas me contive em dizer qualquer coisa para lhes chamar atenção. Em silêncio, baixei a cabeça, recolhi meu material que estava sobre a mesa e me retirei da sala em passos lentos, como quem abandona o barco sem possibilidade de retorno. Logo percebi que o silêncio, aos poucos, passou a dominar o ambiente, mas prossegui firme minha caminhada. Ao final do corredor, já numa distância razoável, olhei discretamente para trás e vi a turma em polvorosa frente à sala de aula. Ensaiei um riso para mim mesmo e pensei: há de funcionar. E segui rumo à minha sala no Instituto de Ciências Humanas e Letras. Em lá chegando, sentei-me frente à mesa de trabalho, cruzei as pernas e comecei a contar bem lentamente. Quando cheguei ao número nove, ouvi as delicadas batidas na porta. Foi bater e ver! Era uma comissão que, constituída às pressas, ali estava para, humildemente, me pedir desculpas e negociar o meu retorno à sala de aula. Ouvi-os com extrema seriedade, montei uma expressão de profunda indignação e, sem perder a ternura, fui taxativo: posso até voltar outro dia, mas hoje as coisas ficam como estão. Em seguida, desfilaram palavras de carinho, respeito e admiração pela minha pessoa e, com ar circunspecto de arrependidos, bateram em retirada cabisbaixos, fechando a porta com uma delicadeza incomum. Fiquei um bom tempo a rir para mim mesmo. Das vezes em que ministrei aulas para o curso de Comunicação Social, aquela foi a turma com a qual mais construí empatia e com a qual realizei um dos mais prazerosos e inesquecíveis trabalhos de sala de aula.

LER OU NÃO LER: EIS A QUESTÃO

LER OU NÃO LER: EIS A QUESTÃO

Por dever de ofício, sou um atento observador do cenário de acusações que envolvem pais, professores e pedagogos com a resistência dos nossos alunos à leitura. Dizem os primeiros que a escola não tem conseguido estimular a formação de leitores, e nisso estaria a principal causa desse fracasso. Denunciam os segundos que as crianças são magnetizadas pela TV, e nisso estaria a razão do seu desinteresse pelos livros. Propagam os terceiros que os pais não acompanham a vida escolar dos filhos, e nisso estaria um importante componente a contribuir para a aversão à leitura. Profetizam outros que os brasileiros são chegados a um certo estado de ócio, e nisso estaria a explicação para o fato. E, nesse cipoal de generalizações e poucas verdades, espalham outros tantos que nossas crianças simplesmente não gostam de ler. Acredito que o tema envolve aspectos que estão aquém e além das acusações em si. Continue lendo

HISTÓRIA E MEMÓRIA PEDAGÓGICA (3)

HISTÓRIA E MEMÓRIA PEDAGÓGICA (3)

       À época, minhas manhãs e tardes eram ocupadas no então Centro Educacional Christus do Amazonas, na Joaquim Nabuco. Convivia com alunos do ensino fundamental e médio. Foi um período rico no aprimoramento de minha prática pedagógica, recheado de experiências inovadoras que marcaram toda minha carreira de professor. A escola oferecia um excelente padrão de estrutura física e didático-pedagógico, o que me dava liberdade de dispor de um vasto material de apoio para minhas aulas, muito além, portanto, do livro didático adotado. Essa liberdade, aliada ao entusiasmo de querer inovar no que se transformaria na profissão de minha vida, me permitia, por exemplo, criar grande parte do material didático a ser trabalhado em sala de aula, principalmente no que tange à leitura e exploração de textos. Continue lendo

HISTÓRIA E MEMÓRIA PEDAGÓGICA (2)

HISTÓRIA E MEMÓRIA PEDAGÓGICA (2)

       Era uma turma da pesada. Em torno de 35 meninos e meninas, com fôlego pra dar e vender, reunidos em uma classe da antiga quinta série do ensino fundamental, em uma escola particular de classe média alta. Naquelas alturas, eu já havia deixado pra trás os bancos da Universidade Federal do Amazonas, no então prédio do Seminário São José, na rua Emílio Moreira. Não precisava mais enfrentar o sufoco e me dividir entre o Curso de Letras e as tantas salas de aula da vida, onde buscava o sofrido ganha pão pra sustentar a família. Já me permitia arriscar algumas experiências pedagógicas que julgava inovadoras, sob a orientação sempre valiosa e segura do Carlos Eduardo, que fora meu professor de linguística e prática de ensino na universidade e me convidara para trabalhar no Christus, este o nome da escola. Continue lendo