HISTÓRIA E MEMÓRIA PEDAGÓGICA (1)

HISTÓRIA E MEMÓRIA PEDAGÓGICA (1)
       Lembro-me como se fosse hoje. Cursava o quarto período do Curso de Letras, na Universidade Federal do Amazonas, e iria assumir minhas primeiras turmas numa escola pública. Foram a mim designadas quatro turmas da então quinta e sexta séries. Aos colegas já formados e com mais tempo de sala de aula, eram atribuídas as turmas das séries seguintes ou do segundo grau. Um tanto verde para lidar com aquela garotada, desdobrei-me para dar conta do recado, mas cometi gafes das quais apenas lá na frente, mais maduro e viajado na prática pedagógica, vim me dar conta. Alguns anos depois, já como professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa no Curso de Letras da UFAM e com a bagagem de um mestrado, tive oportunidade, com a ajuda de meus alunos, de fazer a crítica daquela minha experiência inicial em sala de aula. E, dentre outros aspectos, a discussão mais elementar para a qual convergimos foi na seguinte direção: ao contrário da lógica que então predominava, exatamente aquelas turmas iniciais, carentes de base sólida para enfrentar as séries seguintes e o ensino médio, deveriam ficar sob a responsabilidade de professores formados e com maior quilometragem de prática pedagógica, e não sob os cuidados de um neófito. Não sei como andam as coisas hoje, mas continuo convencido de que um professor inexperiente é menos nocivo em séries mais adiantadas, onde os alunos no geral já dominam as ferramentas essenciais para o enfrentamento de desafios, do que em séries iniciais, onde os alunos carecem ainda de bases elementares para construir essas tais ferramentas.

ENTRE A GRANA E A FOME DE LEITURA

ENTRE A GRANA E A FOME DE LEITURA

Pesquisa de um órgão vinculado ao MEC deu conta de que apenas 26% da população com mais de 15 anos têm “domínio pleno” das habilidades de leitura e escrita. Em outras palavras: somente um em cada 4 brasileiros jovens e adultos consegue “compreender totalmente” as informações contidas em um texto e relacioná-las com outros dados. Diante da constatação, aponta-se a saída mágica: implementar um programa chamado Fome de Livro, que “democratize o acesso ao livro”. Neste caso, manda a prudência ir devagar com o andor, enquanto se analisam os mitos e os fatos que envolvem a questão. Continue lendo

DESCONSTRUINDO MITOS

DESCONSTRUINDO MITOS

       Vista de longe, a cena lembrava pessoas famintas saqueando um hipermercado. Com movimentos velozes, percorriam indistintamente as várias estantes. Escolhida a preferência, marcavam frenética carreira em direção ao alvo. Os olhos brilhantes comandavam os movimentos ágeis das mãos manuseando carinhosamente os objetos. Esses gestos se desdobravam em expressão de puro contentamento. Abraçadas aos produtos, como alguém que defende ardorosamente um território conquistado, dispersavam-se tomando diferentes rumos. No rosto, sorrisos de crianças que acabam de saciar a fome. Continue lendo

ONDE ESTÁ O ESPÍRITO PEDAGÓGICO?

ONDE ESTÁ O ESPÍRITO PEDAGÓGICO?
       Observe as frases seguintes, produzidas por certo aluno do ensino fundamental em uma prova de Língua Portuguesa: “João tem um posto. João é um sujeito composto”. Do ponto de vista formal, à luz do chamado português padrão, há algum deslize? Não, não há. E do ponto de vista semântico-discursivo, o que temos? Pode-se admitir um trocadilho proposital em que o autor das frases consegue um efeito, no mínimo, bem humorado. Pode-se também admitir que ele (o autor) estivesse se referindo ao João como alguém circunspecto, sóbrio. E sob outros aspectos? Pode-se admitir um pequeno descuido ortográfico em que o aluno transforma a preposição (com) e o substantivo (posto) em uma só palavra (composto). Enfim, outras leituras podem ser feitas. Acontece, porém, que o professor da disciplina tinha pedido na prova que o aluno dissesse o que entende por “sujeito composto”. Diante da resposta acima, o professor reprovou a questão e prejudicou o aluno. Fico aqui a me perguntar: até quando os professores de Língua Portuguesa vão continuar considerando mais relevante a terminologia do que o desempenho, não raro criativo, dos alunos em sua língua materna?

 

DA VIDA PARA A ESCOLA

DA VIDA PARA A ESCOLA

       Ouvir o galo cantar sem saber onde é perigoso. Induz a equívocos graves. Há algum tempo, os jornais publicaram matéria sobre um livro didático de língua portuguesa que estaria “defendendo falar errado”. A descontextualização motivou manifestações até de intelectuais do porte de Frei Beto. No Tuíter, ele andou malhando a obra sem real conhecimento de causa. Pois retomo aqui antiga reflexão minha sobre o tema. Continue lendo

BREVÍSSIMA AULA (GRATUITA) DE ANÁLISE DO DISCURSO

BREVÍSSIMA AULA (GRATUITA) DE ANÁLISE DO DISCURSO

       A ordem dos tratores não altera a estrada, mas a ordem das palavras altera os sentidos do discurso. Uma coisa é dizer que integrantes da Marcha das mulheres negras e manifestantes que pedem a intervenção militar entraram em confronto. Não se está acusando A ou B de ter iniciado o confronto. Outra coisa, como está no início do texto no UOL, é dizer que “integrantes da Marcha das mulheres negras entraram em confronto com manifestantes que pedem a intervenção militar no País…” Neste caso, está-se acusando o primeiro grupo de ter provocado o incidente, coisa que o próprio desenrolar do texto do UOL nega. Todo cuidado, portanto, será sempre pouco quando as sutilezas do discurso forem o objeto.

BREVE AULA (GRATUITA) DE ANÁLISE DO DISCURSO

BREVE AULA (GRATUITA) DE ANÁLISE DO DISCURSO

       Nesses dias, o presidente do STF, ministro Ricardo Levandowski, levantou sua voz contra o que chamou de golpe institucional. Da parte de quem louva a democracia e defende o Estado de Direito, todos viram com bons olhos a fala do ministro, que teria enquadrado os contumazes golpistas em seu mundinho que, de tão pequeno, já se tornou patético. Também saboreei a fala do ministro como muito bem-vinda, mas não deixei de atentar para alguns aspectos discursivos escondidos em suas entranhas. Continue lendo

ARMADILHAS DO LIVRO DIDÁTICO

ARMADILHAS DO LIVRO DIDÁTICO

       Certa vez, em debate com professoras e professores da rede pública estadual sobre o livro didático, afirmei ser indiferente a sua boa ou má qualidade, desde que ele estivesse nas mãos de um professor com boa formação pedagógica e linguística. Creio que tenha radicalizado. Acredito, sim, que um livro didático de boa qualidade nas mãos de um bom profissional tem tudo para somar excelentes resultados pedagógicos. Já nas mãos de um profissional limitado, que o tenha como única referência, representará um mal menor. Continue lendo

BREVE AULA (GRATUITA) DE ANÁLISE DO DISCURSO

BREVE AULA (GRATUITA) DE ANÁLISE DO DISCURSO

       Trata-se de uma tática matreira e velhaca, muito antiga, mas sempre usada quando é conveniente dissimular o sujeito autor da ação de um verbo, com o objetivo de proteger o verdadeiro autor. Nesses dias, a velha mídia, os portais e blogs espalharam a notícia de que o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, por conta de uma estranha reforma ainda mal explicada, fecharia várias escolas na capital e no interior. Daí se sai o portal G1, do grupo Globo, com a seguinte manchete: “REORGANIZAÇÃO FECHA 31 escolas estaduais de São Paulo”. Continue lendo

SEDE DE LER OU FALTA DE GRANA?

SEDE DE LER OU FALTA DE GRANA?

       A generalização é um recurso discursivo perverso. Dentre outras razões porque, à medida que fetichiza o objeto do dizer, contribui para a criação de afirmações que são transformadas em verdades incontestáveis e sedimentadas no imaginário da população. “Brasileiro não gosta de ler”, por exemplo, é um desses bordões odiosos, porque apaga o fato de que a busca da leitura envolve questões de ordem social e econômica. Num país de raras bibliotecas, em que a concentração de renda é vergonhosa e os livros ostentam preços tão exorbitantes, poucos têm poder aquisitivo para conviver com eles. Uma coisa, portanto, é ter sede de leitura; outra, é não ter grana para saciar essa sede.