A PEDAGOGIA DO CERTO E DO ERRADO

A PEDAGOGIA DO CERTO E DO ERRADO

       A escolha de um livro didático deve-se pautar por rigorosos critérios. Afinal, trata-se de um instrumento que tanto pode funcionar como importante parceiro do profissional da educação quanto pode comprometer seriamente seu trabalho pedagógico. No caso de um livro didático de Língua Portuguesa, dois aspectos relevantes devem ser considerados: o respeito ao conhecimento empírico do aluno e a relativização do conceito de certo e errado. Continue lendo

A ESCOLA E A VIDA

A ESCOLA E A VIDA

       Velha mania. E sempre dá certo. Por falta de tempo para a leitura imediata ou outra circunstância qualquer, sempre guardo frases, recortes de revistas ou jornais em um canto da mesa de trabalho. A esperança é que em algum dia e momento volte a me encontrar com esses guardados. Vez ou outra, quando o tempo me dá uma trégua, recorro a essa espécie de arquivo vivo e encontro pistas que acabam dando pano pra muitas e boas mangas. Nesses dias, flagrei nesse amontoado de coisas uma página subtraída da revista Carta Capital e fiquei bastante feliz. Continue lendo

A PEDAGOGIA DO ABSURDO

A PEDAGOGIA DO ABSURDO

Apesar de tantos avanços pedagógicos, parece cada vez mais enraizada a crença, traduzida em prática, de que a função da escola se resume a despejar sobre os alunos conhecimentos da mais pura originalidade. Em lá chegando, eles se postam diante do detentor do saber – o professor –, a quem compete abastecê-los. Assim, quanto maior a quantidade de conhecimentos repassados e retidos, mais a escola cumpre o seu papel de guardiã e fomentadora do saber, mais ela prepara seus alunos para enfrentarem os desafios que a vida lhes impõe. Continue lendo

A PEDAGOGIA DA INTOLERÂNCIA

A PEDAGOGIA DA INTOLERÂNCIA

       Um tema muito caro hoje aos estudiosos e pesquisadores da área de Linguística é o chamado preconceito linguístico. Tanto quanto outras formas de preconceito, ele humilha, maltrata, apequena, é obstáculo à construção da cidadania. Pode haver algo mais constrangedor do que você ser censurado, em geral impiedosamente, por “falar errado” sua própria língua materna?

       A base dessa intolerância está na falsa crença, já enraizada no imaginário da população e, o que é mais preocupante, da maioria dos professores da área, de que há uma extraordinária homogeneidade no uso da Língua Portuguesa, o que não é verdade. Continue lendo

A NATUREZA DO DISCURSO

A NATUREZA DO DISCURSO

       O discurso nunca é gratuito. Traduzindo em miúdos: nunca se fala por falar, nunca se diz por dizer. De forma velada ou ostensiva, ele sempre traz consigo um dado propósito. Em outros termos e no sentido mais genérico, todo discurso é de natureza política, porque administra mecanismos que têm por fim agir sobre o interlocutor. A propósito, referindo-se à língua como instrumento de poder, o sociólogo Pierre Bourdieu nos lembra que, ao falarmos, “não procuramos somente ser compreendidos, mas também obedecidos, Continue lendo

A DIDÁTICA DOS MACETES

A DIDÁTICA DOS MACETES

       O sujeito nunca é passivo diante do que lê. Mesmo sem se manifestar explicitamente, ele aciona mecanismos que estão sempre em interlocução com o texto e traduzem concordância, discordância, conivência, polêmica, complementação, indiferença etc. Afora esse comportamento, que se pode chamar de silencioso e estratégico, mas nunca passivo, o bom mesmo é quando o leitor põe a boca no mundo e diz o que pensa acerca do que lê. Continue lendo

A ESCOLA E A PRÁTICA SOCIAL DA ESCRITA

A ESCOLA E A PRÁTICA SOCIAL DA ESCRITA

Escrever é uma tarefa fácil e prazerosa? No tempo de eu estudante, ao longo de todo o período que vai do ensino fundamental ao médio, fui convencido de muitas coisas. Não deve ter sido diferente com outras pessoas de minha geração. Afinal, o lugar social de poder e credibilidade de onde fala uma professora ou um professor no interior de uma sala de aula é suficientemente respeitado para inibir o florescimento de dúvidas. Pois bem, eu alimentei, por anos a fio, a convicção de que escrever era algo muito simples e gostoso. Continue lendo

O ENEM E A ENGANAÇÃO DIDÁTICA

O ENEM E A ENGANAÇÃO DIDÁTICA

       A escola é atividade meio, mas há livros didáticos que insistem em transformá-la em atividade fim. Nesses dias, recebi o anúncio do lançamento de um livro chamado “Como escrever para o Enem”. Nada mais ridículo. Ora, convenhamos, eu não preciso escrever bem “para o Enem”, eu preciso escrever bem para a vida. Neste sentido, escrever bem “para o Enem” deve ser consequência natural de meu aprendizado. Continue lendo

BREVÍSSIMA AULA (GRATUITA) DE ANÁLISE DO DISCURSO

BREVÍSSIMA AULA (GRATUITA) DE ANÁLISE DO DISCURSO

       No discurso, muitas vezes o que se diz serve de pista preciosa para fatos que deixam de ser ditos. Nesses dias, o Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, nos deu um contundente exemplo disso, ao afirmar que “não existe mais no País cidadão acima da lei ou livre de se submeter às decisões judiciais”. Ora, por trás da marca visível “não existe mais”,  Janot está reconhecendo dois fatos inquestionáveis: 1o) Até há pouco tempo havia, sim, cidadãos acima da lei no Brasil, ou seja, vigorava a impunidade; 2o) O País passou por uma importante transformação em suas estruturas judiciais e hoje não convive mais com os cidadãos “acima de qualquer suspeita”. Para o bom entendedor, meio discurso basta.

O ATRASO DO ATRASO NO ENSINO DA LÍNGUA PORTUGUESA

O ATRASO DO ATRASO NO ENSINO DA LÍNGUA PORTUGUESA

Eric Sena, o mancebo de 12 anos aqui de casa, fez prova de Língua Portuguesa nesses dias. Um dia antes, pediu-me que escutasse a revisão do que havia estudado. Sua técnica é assim. Lê o material e, depois, pede a mim ou à sua mãe para ouvi-lo e, eventualmente, corrigirmos ou darmos alguma sugestão. Para meu desalento, a prova abordaria questões puramente teóricas de ordem sintática: o que é sujeito, sujeito simples e indeterminado, oração sem sujeito, tipos de predicado e por aí afora. Sobre leitura, compreensão de textos e produção escrita, nada! Triste constatação: os professores de Língua Portuguesa continuam, décadas depois de extraordinários avanços no campo da linguística aplicada, massacrando seus alunos do ensino fundamental com pura gramatiquice, em lugar de privilegiarem a prática do efetivo uso da língua materna, acompanhada das práticas permanentes de leitura e produção textual. A lógica mais elementar, e Paulo Freire foi o grande precursor desse caminho, manda que qualquer processo pedagógico, para ter resultados mais efetivos, parta do conhecido para o desconhecido, ou seja, da prática para a reflexão sobre a prática. Tudo está a indicar, entretanto, que a maioria dos professores de Língua Portuguesa prefere continuar na contramão da ciência e dos fatos. Pobres alunos.