REALIDADE E FICÇÃO LINGUÍSTICA

REALIDADE E FICÇÃO LINGUÍSTICA

       Liga-me um amigo jornalista em quase desespero. Estava diante daquela hora frenética e crucial nas redações. Era preciso fechar a matéria e estava às voltas com o que se pode diagnosticar de crise linguístico-existencial. Tento esclarecer: ao buscar inspiração final para a elaboração de seu texto, recolheu-se a um canto da redação para ler a coluna do Millor Fernandes, publicada em uma certa revista semanal. Para sua surpresa e início de desespero (não do Millor, mas do meu amigo, claro), lá estava cravado o plural de “gol” como sendo “gous” (Isso mesmo, com “us” no final!). Imediatamente, correu de volta ao seu texto e não deu outra: era inevitável o uso do plural daquilo que os mais ortodoxos chamam de “a transposição da linha da meta pela bola”, que caracteriza o objetivo, a finalidade de uma partida de futebol e é gerador de tantos derivados como goleada, goleador, golear, goleiro. Ligado ao meu pragmatismo e desligado das milhares de particularidades gramaticais e etimológicas que envolvem o uso da língua, confesso ter sido pego de surpresa. Ainda assim, era preciso buscar uma saída, uma vez que a situação adquirira um caráter de absoluta emergência. Pedi alguns segundos de tempo ao meu amigo e tentei aquela famosa saída pela esquerda.

       Discursivamente falando, há um dado curioso que envolve essa situação. Aquilo que os estudiosos chamam de “lugar social de onde fala o sujeito”. Resume-se ao seguinte: enquanto código socializado e convencionado entre os falantes, uma língua não tem existência em si e por si. Neste sentido, pode-se até dizer que ela é neutra. Ela vale mesmo é pelo lugar social ocupado por aqueles que a falam. E aqui caberia uma distinção entre língua e discurso. Aquela, na condição de estrutura, instrumento; este, na condição de espaço onde se dá a efetiva construção de sentidos. Trocando em miúdos: o ato que permite ou não a compreensão entre os falantes de uma dada língua é um fenômeno social e ideológico por excelência. Com isso, quero dizer que o valor de verdade do que se diz depende muito e muitíssimo de quem diz. Ilustro com uma hipótese: o meu amigo jornalista provavelmente não teria dado a mínima, se o plural de gol acima referido tivesse sido manifestado por um colega de profissão mais próximo ou por um desconhecido qualquer. Acontece, porém, que o registro não só foi feito pelo Millor Fernandes como também veiculado nas páginas de uma revista, quer gostemos ou não (e eu não gosto!), de tradição na imprensa brasileira. Mas essa parece ser uma discussão muito acadêmica para este espaço e momento. Em nada alivia a aflição do meu amigo. O tempo corre, o ponteiro não para e ele precisa mesmo é fechar a sua matéria.

       Pressionado por uma resposta, digamos assim, mais substancial, recorro à minha pequena biblioteca. Abro o dicionário etimológico. Confirmo o que já sabia. A palavra chegou até nós pelo viés imperialista. Veio do inglês “goal”. Não satisfeito, abro o meu investimento recente e de peso mais caro: o Houaiss. Lá encontro uma precisão histórica interessante. Fico sabendo que a palavra inglesa, que tem como plural “goals”, aqui aportou no século passado, mais exatamente no ano de 1904. Deparo-me, ainda, com a informação de que o plural, cá entre nós, é “goles” (ô). Penso comigo que, se fosse “goles” (ó), teria tudo a ver. Meio assustado, salto do Houaiss para o nosso bom e velho Aurélio. Há, também, os plurais “gois” e “golos”, este de uso mais lusitano. Sigo adiante. Encontro o registro de que, etimologicamente, é incoerente o uso do plural “gols”. Num lance rápido e não calculado, volto ao Houaiss e delicio-me com a sua definição para a expressão “fechar o gol”: “ter esplêndido desempenho (o goleiro) durante um jogo, impedindo o adversário de fazer GOLS…” (o destaque é meu). De volta, mais uma vez, ao Aurélio, encontro exatamente o que buscava em relação ao plural gols: “(…) parece-nos difícil que se venha a fugir desse barbarismo, tão arraigado está”. Resolvido o problema linguístico-existencial do meu amigo.

       Moral da história: quem manda na língua são seus falantes nativos. O resto é ficção. E estamos conversados.

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