TEMER, QUALIFICATIVO DEPRECIATIVO

TEMER, QUALIFICATIVO DEPRECIATIVO

       A história, como se sabe, consagrou Silvério dos Reis um grande traidor. Em função de sua aleivosia, os inconfidentes caíram nas mãos dos donos do poder. Tiradentes, morto e esquartejado, tornou-se sua vítima mais notória. Como as mudanças de sentidos das palavras em uma dada língua navegam ao sabor dos acontecimentos sócio-históricos-ideológicos, com o tempo, Silvério dos Reis deixou de ser gramaticalmente classificado apenas como substantivo próprio e ganhou o status de adjetivo, assim se consagrando até hoje. De tal modo que, referir-se a alguém nos termos da expressão “você é um silvério dos reis”, significa dizer “você é um traidor”. Eis que a história se repete. Depois de ter concorrido por duas vezes na condição de companheiro e vice na chapa da Presidenta eleita Dilma Rousseff, Michel Temer vislumbrou a possibilidade de ocupar o cargo da titular pelo mais vil dos atalhos: a traição. Para isso, aliou-se ao que há de pior e mais degradante na política brasileira. Quer o golpe se consolide, quer ele seja desalojado da cadeira que não lhe pertence, não tem mais jeito. A exemplo de Silvério dos Reis, a atuação nefasta do substantivo Michel Temer lhe projetou sentidos que ficarão na História. Temer tornou-se adjetivo que agride e desqualifica. Ninguém de boa índole haverá de querer ser tratado como “um michel temer da vida”, porque estará sendo qualificado de traidor e golpista. Como bem lembrou em conversa sobre o assunto meu bom amigo Tenório Telles, “a língua é vingativa”.

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