A SENTENÇA DE MORTE EM VIDA

A SENTENÇA DE MORTE EM VIDA

       O percurso do texto não era bem esse. Escreveria algo mais técnico. Uma reflexão complementar, uma contribuição para ajudar a esclarecer a falsa polêmica em torno do livro didático “Por uma vida melhor”, da pesquisadora Heloísa Ramos, acusada na mídia de fazer apologia ao uso “errado” da língua portuguesa. O caso se deu há algum tempo, estão lembrados? Acontece que, já diante do computador, dei-me conta, por entre alguns papéis, de um recorte de jornal, já querendo amarelar, com um artigo de Lino Chíxaro chamado “Uma lição para o jornalismo”. Lembrei-me da razão pela qual lhe havia dado sobrevida. Ao final do texto e num magistral poder de síntese, Lino crava: “…o jornalista precisa ser mais sério e imparcial que o juiz. A sentença deste pode levar à cadeia. A daquele pode levar à morte em vida”. De pronto, dei asas ao incômodo que me perseguiu durante um bom tempo e enviesei o texto por outro caminho, sem me afastar do tema. De fato, a depender do que acompanhei à época, a mídia sentenciou à morte em vida um livro didático e sua autora. Não porque tivesse levado ao conhecimento público o que Mino Carta chama de realidade factual, mas por ter praticado, mais uma vez, a mais nova vertente do jornalismo: aquela que ouve o galo cantar, mas não sabe onde. Nessa esfera, a tão propalada polêmica não se deu em virtude do conteúdo do livro didático, foi gerada, isso sim, a partir de uma matéria mal feita e facciosa que descontextualizou a obra e deu provas claras de que seu autor não a leu integralmente. Num curioso efeito cascata, e a partir de falsas premissas, espalhou-se país afora um irresponsável processo de linchamento. Jornais estamparam que o MEC havia aprovado livro que “defende” fala popular. A articulista Dora Kramer, do Estadão, debochou da competência da autora e, pasmem, viu nisso uma “das piores heranças do modo PT de governar”. O senador tucano Álvaro Dias, da tribuna, bradou aos quatro cantos a necessidade de recolhimento do livro. Filósofos que parecem nunca ter lido Bakhtin e Pierre Bourdieu também tiraram sua casquinha. A Academia Brasileira de Letras divulgou nota criticando a obra e o MEC. Uma procuradora do Ministério Público Federal de nome Janice Ascari, “chocada” com o livro que “autoriza” os alunos a falarem “nós pega o peixe”, vaticinou estar-se diante de um “crime”. O senador e ex-ministro da Educação, Cristovam Buarque, também pegou carona e vociferou impropérios e desinformações. Até o senhor Alberto Dines, que dá aulas de bom jornalismo, embarcou na histeria. Detalhe 1: em uma semana, os “novos linguistas”, fundados no achismo, derrubaram mais de meio século de pesquisa científica na área da Sociolinguística; detalhe 2: se tivessem lido integralmente o livro, não teriam corroborado o péssimo jornalismo da primeira matéria; detalhe 3: se, antes, tivessem se dado o trabalho de ler os Parâmetros Curriculares Nacionais, já bem antigos, teriam evitado tamanho desatino; detalhe 4: e agora, que o linchamento está feito, quem paga por isso? Respeitadas algumas particularidades, lembrei-me muito do caso da Escola-Base de São Paulo.

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