ANÁLISE DE DISCURSO PARA PRINCIPIANTES

       Em termos bem simples, a coisa se resume ao seguinte: o significado das palavras está para o que se diz; o sentido está para o como se diz. Neste último caso, estamos no mundo do discurso. E, pelo discurso, é possível construir diferentes sentidos partindo das mesmas verdades factuais. Querem um exemplo? A última pesquisa IBOPE apurou o seguinte: 66% da população não confiam em Michel Temer e 13% aprovam seu governo. São, digamos, dados factuais. O modo como os jornais se utilizam desses dados, entretanto, projeta sentidos diferentes sem alterar os números. A manchete de O Globo, por exemplo, foi: “Governo Temer tem aprovação de 13% dos brasileiros”. Do ponto de vista factual, o número está correto. E se, por hipótese, a manchete fosse a seguinte: “Governo Temer tem reprovação de 66% ? O número também estaria correto, mas a pergunta que se faz é: os sentidos, nos duas manchetes, correspondem à factualidade? Claro que não! É aí que surge a manipulação pelo discurso. No primeiro caso, ao destacar os 13% de aprovação, o mancheteiro transforma um dado absolutamente negativo, o percentual menor, em trunfo para o governo; no segundo caso, ao destacar os 66% de reprovação, o mancheteiro transformaria o percentual maior em desabono para o governo, mas estaria amparado na exponencial dimensão desse percentual. Tanto no primeiro quanto no segundo caso, como se pode constatar, ele constrói diferentes sentidos discursivos a partir dos mesmos dados. Do ponto de vista simplesmente numérico, portanto, não há desonestidade alguma. A desonestidade do mancheteiro, entretanto, torna-se escancarada a partir da maledicência de sua escolha e de um lapso de memória: em ocasião anterior, durante a gestação do golpe e em circunstâncias bem semelhantes, ele não hesitou em manchetar: “Datafolha: 62% reprovam o governo Dilma”. Moral da história: Todo cuidado é pouco, afinal nem as verdades estatísticas resistem à maleabilidade do discurso.

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