O JOIO E O TRIGO DO JORNALISMO

O JOIO E O TRIGO DO JORNALISMO

       Não, nem tudo está perdido. Em meio à torrente do jornalismo chinfrim, que margeia os acontecimentos factuais, que não se distancia da vontade dos patrões, que omite e manipula a verdade, que é dominado pela preguiça de checar dados, que não exercita o faro para as descobertas, há, sim, gente por aí valorizando a profissão e fazendo valer seu compromisso social. Fugindo dos jornalões e jornalecos, tenho lido excelentes matérias e reportagens em blogs, portais alternativos e em alguns poucos impressos. Bem a propósito, chamou-me atenção, nesses dias, o certeiro senso de desconfiança do jornalista Fernando Molica, do jornal carioca “O dia”. Deu-se o trabalho de ler pacientemente o despacho do juiz Sérgio Moro, que embasou a prisão do marqueteiro João Santana e sua esposa. Poucos profissionais chegariam a tanto. Se contentariam com o que, no geral, foi reproduzido na velha e surrada mídia. Molina acabou fazendo um pouco o trabalho de um analista do discurso e descobriu, pela recorrência de determinadas marcas linguísticas, que o discurso de Moro se sustenta tanto quanto um saco de estopa vazio. O juiz usou 19 vezes a palavra “possível”; 3 vezes a palavra “possivelmente”; 5 vezes a palavra “provável”; por 14 vezes usou e abusou do futuro do pretérito “seria”; sem contar com o exaustivo abuso do “tentar/tentariam”, por 16 vezes. Ou seja, pelo que daí se pode depreender, o senhor Moro navegou a torto e a direito na falácia, na suposição e no vazio, em um documento legal que, pelas suas graves consequências, deveria ter sido pautado pela convicção ancorada em elementos factuais e comprovados. Ficam, do episódio, uma lição de jornalismo investigativo e a descoberta de que o juiz Moro gosta mesmo é de palavras flácidas para bovinos dormitarem. Apenas risível, não fosse trágico.

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