VIRAM O BELCHIOR POR AÍ?

       Bate uma lembrança danada. Resgato Belchior no Spotify. Que beleza! O reencontro tem o dom da reinvenção. Assim como a releitura de um livro depois de anos. Descobertas antes não percebidas veem à tona. Afinal, a percepção é alimentada pela história e pelas experiências acumuladas na vida. Eu não sou hoje o mesmo. Sou outro. Não mais aquele que ouvia Belchior anos atrás. E os ouvidos mais apurados do outro de hoje se dão conta. Como é intensa a inspiração de Belchior! Como são primorosos e sofisticados os arranjos de suas músicas! Como são inquietantes suas provocações! Quer quando nos impregna de um passado que vive em nós, “…apesar de termos feito tudo, tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”, quer quando nos liberta desse mesmo passado, “…no presente, a mente, o corpo é diferente, e o passado é uma roupa que não nos serve mais”. A música brasileira anda um pouco pobre. Ô, gente, alguém viu o Belchior por aí?

O COMEÇO DO FIM

       Difícil fazer uma projeção da ruína do nosso País, na absurda hipótese de Temer, o traíra do Jaburu, e sua turma consolidarem o golpe. Dentre tantas outras pistas que apontam rumo à tragédia, veio à torna nesta semana a afirmação categórica do senhor Henrique Meireles de que Dilma “gastou muito com educação e saúde”. Duas breves leituras dessa agressão à inteligência e ao bom senso: 1a) Para o cúmplice de Temer, recursos para educação são “gastos” e não investimentos; 2a) para o mesmo cúmplice, é preciso “gastar” menos com educação e saúde, certamente por entender que já atingimos um padrão nessas áreas digno da Suíça ou da Finlândia. Por fim, desvela-se que Meireles não faz a mínima ideia do que seja o dia a dia da sobrevivência de milhares de escolas públicas pelo país afora. Ele ouviu o galo cantar, mas não sabe onde.

O EVANGELHO SEGUNDO FREI TITO

       Lendo o livro “Um homem torturado”, de Zeneide Duarte-Plon e Clarisse Meireles, sobre a vida e o suicídio de Frei Tito, depois de barbaramente torturado pelo sanguinário delegado Fleury, encontro essa pérola deixada por ele alguns dias antes do dia fatídico: “O Evangelho traz uma crítica radical da sociedade capitalista. Neste sentido, é revolucionário. Os temas da esperança, da pobreza, do messianismo, que são profundamente bíblicos, estão na fonte do movimento revolucionário. Eu aceito totalmente a posição de Camilo Torres. Não vejo realmente como ser cristão sem ser revolucionário”. Pena que Frei Tito não tenha sobrevivido pra conhecer o Papa Francisco, um revolucionário aos meus olhos.

OS “NOTÁVEIS” HOMENS DE TEMER

OS “NOTÁVEIS” HOMENS DE TEMER

       Antes de consumar a primeira parte do golpe, Michel Temer, o usurpador, prometeu formar um ministério de “notáveis”. Eis, aqui, uma síntese da plêiade de alguns desses homens de ilibada reputação. MENDONÇA FILHO, ministro da Educação. Suspeito de ter recebido R$ 100 mil da empreiteira UTC para sua campanha de 2014. HENRIQUE EDUARDO ALVES, ex-ministro do Turismo. Acusado pelo ex-senador Sérgio Machado de ter recebido R$ 1,55 em recursos ilícitos entre 2008 e 2014. ELISEU PADILHA, ministro-chefe da Casa Civil, carinhosamente chamado pelo falecido senador ACM de “Eliseu quadrilha”. Continue lendo

O MEMORIALISTA MARCELO RUBENS PAIVA

O MEMORIALISTA MARCELO RUBENS PAIVA

       O ritmo e o envolvimento com a leitura costumam ser determinados pelo tipo de material que nos cai em mãos. Há livros, por exemplo, que se leem com toda calma do mundo. Assim como há livros que se leem com sofreguidão, ansiedade e pressa de se chegar à última página. Tanto no primeiro quanto no segundo caso, nem sempre significa dizer que sejam livros chatos ou desinteressantes dos quais queremos nos livrar. É da natureza dos livros balizarem uma ou outra forma de interlocução com o sentimento do leitor.

       Da interminável fila de leituras que se avolumam na estante e nas entranhas do meu Kindle, acabei me decidindo pelo e-book, e a bola da vez foi “Ainda estou aqui”, de Marcelo Rubens Paiva, Continue lendo

BREVÍSSIMA AULA (GRATUITA) DE ANÁLISE DO DISCURSO

BREVÍSSIMA AULA (GRATUITA) DE ANÁLISE DO DISCURSO

       A linguagem é o mais extraordinário fenômeno a marcar a vida do ser humano. Concretizada no discurso, por intermédio da língua, ela define o que somos, o que pensamos, como agimos, no que acreditamos. Tudo isso, claro, numa relação dialética. Mas num esforço de síntese, pode-se dizer que o sujeito mais é dominado do que domina o discurso, mais é seu escravo do que seu senhor. Querem um exemplo bem quentinho? Nesses dias, em uma entrevista, perguntado por que decidira limitar a cessão de aviões da FAB para os deslocamentos de Dilma Rousseff, Temer, conhecido como o usurpador, respondeu com a maior sinceridade: “A senhora presidente utiliza o avião, ou utilizaria, para fazer campanha denunciando o golpe”. Bingo! Em seu ato falho, o interino disse aquilo no que de fato acredita, mas que, por razões óbvias, tenta esconder sempre que pode. Em outras palavras, em meio às diversas vozes de seu discurso, falou aquela voz do enunciador que tem como fato estar em processo no Brasil um golpe de estado. Ou seja: é golpe mesmo! Então: Fora Temer!

A “ESCOLA SEM PARTIDO” OU O GÊNIO DA ESTUPIDEZ

A “ESCOLA SEM PARTIDO” OU O GÊNIO DA ESTUPIDEZ

       Alexandre Dumas estabeleceu uma diferença nada trivial entre estupidez e genialidade. A genialidade, dizia ele, tem limites, a estupidez, não. Lembrei-me disso a propósito do projeto de um tal deputado aqui do Amazonas que prega a “neutralidade” ideológica, política e religiosa do professor na sala de aula. A estupidez parte do princípio, por si só eivado da mais pura ignorância, de que seja possível, antes de adentrar à soleira da sala de aula, o professor pendurar em um cabide sua formação social e ideológica, assim como uma troca de camisa. Santo sacrilégio! Continue lendo

O PODER DA SALA DE AULA

O PODER DA SALA DE AULA

É impossível negar a força determinante do que é transmitido no espaço do que Althusser bem definiu como aparelho ideológico escolar. Isso se deve, sobretudo, ao fato de, apesar de todas as suas precariedades e limitações materiais, tratar-se de um lugar social de extrema credibilidade. Nele, a própria configuração física do espaço concorre para tal compreensão: os alunos ficam sentados em pequenas e apertadas carteiras previamente enfileiradas, enquanto o professor dispõe de uma mesa grande, cadeira diferente e mais confortável, quadro, pincel, e liberdade de movimentos. Além disso, tem-se na figura do professor, para todos os efeitos, o detentor da sabedoria e do conhecimento, sem contar com a maior de todas as prerrogativas: a do direito efetivo ao uso da palavra, o que acaba sendo apenas circunstancial aos alunos. Tal cenário é revelador de que nada do que acontece no espaço escolar é gratuito. Tudo é carregado de sentidos. Continue lendo

HISTÓRIA E MEMÓRIA PEDAGÓGICA (6)

HISTÓRIA E MEMÓRIA PEDAGÓGICA (6)

       Eram tempos de esperança. Eu tinha retornado de São Paulo em 1987, onde havia defendido a dissertação de mestrado na Pontifícia Universidade Católica, e acompanhava de longe e com entusiasmo a promulgação, pelas mãos do bravo deputado Ulysses Guimarães, da Constituição de 1988. De volta à sala de aula, no novo Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL), no campus da Universidade Federal do Amazonas, no Aleixo, a cabeça fervilhava de ideias e planos. Um deles vingou no ano seguinte, 1989. O reitor era Roberto Vieira. Na Pró-reitoria de extensão, contávamos com o entusiasmo e o espírito desbravador de Silas Guedes de Oliveira. Continue lendo

ESTRANHO PAÍS O NOSSO

ESTRANHO PAÍS O NOSSO

       Quem não se lembra? Em junho de 2013, as ruas do Brasil se viram tomadas por manifestantes de todos os credos e ideologias. Queriam mudanças nas políticas públicas, queriam transporte urbano de qualidade, queriam mais atenção à saúde e à educação, queriam decência na política e, sobretudo, gritavam a plenos pulmões palavras de ordem contra a corrupção. E o que se tem hoje? Um golpe conduz ao poder um governo interino ilegítimo que tudo o que faz vai na contra mão de tudo o que se reivindicava nas manifestações de junho de 2013: menos saúde, menos educação, menos transporte coletivo de qualidade, menos inclusão, mais privatização, menos direitos para os trabalhadores, menos políticas sociais e, pasmem, mais corrupção, muita corrupção, na medida em que grande parte dos ministérios está ocupada por políticos envolvidos com as mais diversas falcatruas, mesmo considerando os três já defenestrados. Ora, pela gravidade do quadro atual, era de se esperar que as ruas do País não comportassem tanta gente. É ou não é estranho esse povo brasileiro?