A PAIXÃO DE AURÉLIO

A PAIXÃO DE AURÉLIO

        O cinema sempre atiçou um vasto feixe de paixões. A minha, por exemplo, desde o tempo de eu menino no fantástico mundo do Cine Ideal, no bairro onde me criei, foi a de apaixonado espectador. Mas há tantas e tantas outras paixões nesse mundo da Sétima Arte! A do cineasta amazonense Aurélio Michiles, por exemplo, é reconstituir para a História, armado com a paciência de um ourives e a determinação de um desbravador, a vida daqueles que nutrem outra fascinante forma de paixão pelo cinema: a de preservar sua memória. Em “Tudo por amor ao cinema”, extraordinário documentário que estreia nesta quinta nos cinemas da rede Cinépolis, Michiles mergulha na paixão e na vida de outro amazonense, Cosme Alves Netto. Hábil o suficiente na narrativa documental, Aurélio traça um longo período que se entrelaça com a história do cinema brasileiro e a luta, muitas vezes frenética e adversa, de Cosme Netto pela preservação da memória de nossa cultura cinematográfica. A partir dessa trajetória entre narrador e narrativa, o espectador é estimulado a depreender, então, o inevitável encontro entre duas formas de paixão pelo cinema.

AS ARMADILHAS DA LÍNGUA

AS ARMADILHAS DA LÍNGUA

Todo cuidado é pouco. As palavras, quando mal administradas, podem provocar inusitadas formas de sentido. Num desses dias, lá estava escrito em manchete de um jornal local: “Polícia apura morte de rapaz após injetar hidrogel no pênis”. Como a lógica, muitas vezes, perde o comando dos efeitos de sentido, nada impede que pairem dúvidas sobre quem injetou hidrogel no pênis: se a polícia ou o rapaz.

A REDUÇÃO DA FOME E DA POBREZA E O CRASSO ERRO DO PT

A REDUÇÃO DA FOME E DA POBREZA E O CRASSO ERRO DO PT

O Brasil inteiro deveria estar em festa. Deveria, sim, ser feriado nacional! A ONU anunciou que o País cumpriu a meta do milênio em redução de pobreza e fome. Confesso que, vividos meus mais de sessenta anos, posso dizer que vivi, convivi e vi muitas coisas, mas nunca sonhei como possível viver esse extraordinário momento em que o mundo, com a chancela da ONU, fica sabendo dessa conquista que qualquer país com a trajetória do Brasil gostaria tanto de comemorar. Curiosa e trágica, entretanto, é a contradição política que se vive. Continue lendo

TETO SALARIAL PARA OS PROFESSORES

TETO SALARIAL PARA OS PROFESSORES

O executivo municipal argumenta que, face à crise, o reajuste dos professores não pode passar de 9,5%, já aprovado pelos nobres vereadores. O salário inicial de um mestre irá variar entre R$ 1.344,00 e R$ 1.471,00. Quanta dinheirama, heim? Como ser bem preparado e acumular tamanha responsabilidade com tão pouco pra manter a dignidade? A crise como argumento, por sua vez, chega a ser risível. Tenta passar a ilusão de que, em tempos de bonança, os salários desses profissionais são extremamente valorizados. E pensar que o teto máximo do salário de um servidor público é o de ministro do STF, R$ 33.700,00. Quanta diferença para R$ 1.344,00!!! Pensando aqui com meus botões. Que tal o teto máximo passar a ser o salário de um professor?

 

O PREÇO DA MODERNIDADE

O PREÇO DA MODERNIDADE

Foi-se o tempo em que havia um divisor de águas entre o expediente de trabalho e o período de descanso. No tempo de eu menino, lá em São Raimundo, a fronteira entre trabalho e ócio era sinalizada pelo apito meio engasgado que escapava da chaminé da serraria Rodolfo, do outro lado do igarapé, e invadia todos os lares e ouvidos do bairro. Os toques aconteciam infalivelmente às 7, 11, 13 e 17 horas e tinham um poder tão forte e autoritário, que as máquinas eram desligadas no meio de uma operação de corte de uma tora de madeira. A vida dos operários e, por consequência, a nossa eram reguladas e disciplinadas por aqueles apitos. Continue lendo

A CIÊNCIA AGONIZA NO AMAZONAS

A CIÊNCIA AGONIZA NO AMAZONAS

Está no jornal da SBPC. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) destinou R$ 1,15 bilhão a pesquisas científicas e tecnológicas desenvolvidas naquele estado em 2014, montante 4,5% acima do ano anterior, proporcional, naturalmente, à grandiosidade de São Paulo. A lógica está corretíssima! Em tempos de crise, investir em CT&I é essencial para mais rápido livrar-se dela. Continue lendo

BREVE AULA (GRATUITA) DE ANÁLISE DO DISCURSO

BREVE AULA (GRATUITA) DE ANÁLISE DO DISCURSO

Uma das estratégias mais ardilosas embutidas em um discurso é quando o sujeito administra outras vozes, coloca-as em conflito e delas se distancia, agindo como mero espectador, como se nada tivesse a ver com o acontecido. Em sua desesperada tentativa de livrar o pescoço, Eduardo Cunha tem posto em prática com muita habilidade essa artimanha.Ao acusar, por exemplo, Sérgio Moro de ser “dono do País”, ele atribui ao desafeto características que o colocam em imediato conflito com a própria noção de liberdade e estado de direito. Continue lendo

GOLPISTAS DE CARTEIRINHA

GOLPISTAS DE CARTEIRINHA

Curiosa, muito curiosa e intrigante a tolerância nesse nosso País com os inimigos da democracia. Chega a ser trágica. Deus e o mundo sabem, inclusive por confissão do primeiro em um editorial, que O Globo, Estadão e Folha de São Paulo tiveram ativa participação na derrubada do presidente João Goulart, legitimamente escolhido pelo povo. Esse macabro apoio, num tempo em que a midiazona mandava e desmandava, custou aos brasileiros a quebra do Estado de Direito e duas décadas de cruel ditadura, com mortes, desaparecimentos, censura e a existência de uma das mais cruéis máquinas de tortura. Passadas mais de três décadas de dura e sofrida reconquista da democracia, os mesmos jornalões voltam à carga, com o mesmo modus operandi. Só faltam apresentar suas credenciais de golpistas.

SINTONIA DE GÊNIOS

SINTONIA DE GÊNIOS

O fenômeno mais enriquecedor e fascinante do ato de ler é ele nunca se curvar aos limites do texto. O que pretendo dizer com isso? Um texto tem, sim, seus limites, convenciona-se, inclusive, pelo uso do chamado ponto final. Mas tais limites são apenas físicos. Discursivamente falando, para buscar apoio em Umberto Eco, todo texto é sempre uma obra aberta. Nunca começa e termina em si. Cada palavra, cada frase, cada parágrafo remetem sempre a tantos outros textos, a tantas outras situações, a tantos outros episódios e circunstâncias, formando uma espécie de rede, esta sim, sem limites e fronteiras. Um texto, portanto, será sempre mero pretexto para chegarmos a outros e infinitos textos. Continue lendo

BREVE AULA (GRATUITA) DE ANÁLISE DO DISCURSO

BREVE AULA (GRATUITA) DE ANÁLISE DO DISCURSO

Não se iludam. O senhor Eduardo Cunha, como se diz aqui pelas nossas bandas, não é daqueles tolos que caem da rede e ficam a brincar com os punhos. Sua primeira reação, diante da acusação de ter recebido R$ 5 milhões em propina, não foi defender a si mesmo, mas angariar cumplicidade institucional. “Há um objetivo claro de constranger o Poder Legislativo”. Sacaram a parada da arguta criatura? Sibilinamente, desviou o foco da acusação de si para a instituição Congresso. Traduzindo em miúdos: quem está em xeque não é Sua Excelência o achacador da República, mas a instituição Congresso Nacional, que deve se defender de constrangimentos. Viram como ele sabe administrar seus interesses trabalhando ardilosamente o discurso?