A RADIOGRAFIA DE UM GOLPISTA

A RADIOGRAFIA DE UM GOLPISTA

       Vamos trabalhar com a hipótese de que o afastamento de Dilma Rousseff, presidenta eleita, não tivesse decorrido de um golpe imoral, como já se revelou, e que o vice-presidente assumisse por força das circunstâncias a interinidade do poder até o julgamento final no Senado, com dupla perspectiva de retorno ou não da Presidenta ao seu cargo. Falaria alto, nesse caso, o sentido da interinidade. Alguém honesto e de boa fé, imbuído da interinidade, ou seja, de uma situação que pode ou não ser transitória, não desconstruiria, do dia para a noite, um projeto de governo que foi chancelado pelas urnas, para implantar um outro que não recebeu um voto sequer. Continue lendo

O MUNDO FRATURADO DO CINEMA

O MUNDO FRATURADO DO CINEMA

(Para o Aurélio Michiles, que tem paixão pelo cinema)

Gosto de cinema, mas já não gosto de ir ao cinema. Acho até que já falei sobre isso ou coisa parecida. Não, nem pensar que assim tenha sido desde sempre. Minha infância e juventude foram vividas dentro de um cinema. E sempre que tenho oportunidade falo ou escrevo a respeito deste sempre lembrado período da vida em que a magia do cinema me fazia romper qualquer barreira entre o sonho e a vida que eu menino vivia no meu bairro de São Raimundo.

Não, também, que minha paixão pelo cinema tenha parado no tempo. Criei meu próprio Cinema Paradiso em casa. Com tela que mata minha saudade do velho cine Ideal e um razoável acervo em DVD que venho construindo há anos, sobretudo na condição de um incorrigível caçador de promoções. O que não gosto mais, repito, é de ir ao cinema. E penso que tenho minhas razões.

Pode haver situação mais incômoda, com o início da projeção, do que a desconcertante orquestra promovida pelo barulho das embalagens de papel e pelo seu vizinho ao lado, triturando impiedosamente o milho de pipoca na boca? Pode haver coisa mais inconveniente do que a alternância dos diferentes toques de celulares a bom perturbar o seu juízo? Mais que isso, que obrigação você tem de aturar a breguece ou breguice do infeliz que resolve atender ao celular e discutir, em alto e bom tom, os encontros e desencontros de sua vida amorosa? Isso sem contar com aqueles outros com pendor para cineastas da pirataria, que comprometem sua atenção com o visor dos celulares ou das câmeras. Nada contra a paixão desenfreada e os beijos ‘calientes’ à moda saca-rolha, desde que aconteçam, convenhamos, em outro lugar e não causem constrangimento a quem investiu num ingresso bastante caro para tirar proveito de outras cenas. Pergunto eu o que pode haver de mais explícita e descarada invasão territorial do que o tosco esparramado na poltrona, logo atrás, não satisfeito com a parte que lhe cabe naquele latifúndio, esticar as pernas sobre a poltrona da frente e achar absolutamente natural você ter o dever de suportar o odor das suas botinas vencidas? Não, assim não dá!

Mesmo não sendo herdeiro de nenhuma linhagem nobre na minha árvore genealógica, decididamente me recurso a compactuar com o que, para um velho amigo, é a maior evidência da estupidez, da ignorância, de um mundo inculto e fraturado. No meu tempo, o escurinho do cinema era um lugar sagrado.

OS GOLPISTAS ESTÃO NUS!

OS GOLPISTAS ESTÃO NUS!

       Fantasiaram o golpe de “pedaladas fiscais”. Nas gravações de Sérgio Machado com Romero Jucá, entretanto, o tema não é abordado sequer uma vez. A conversa é focada na necessidade de afastar Dilma Rousseff e emplacar Temer, o usurpador, porque ela não abre mão de “estancar a sangria” da Lava Jato. A saída da Presidenta é vista, então, como única alternativa de livrar os corruptos dos próximos passos da operação e lhes garantir impunidade. Moral da história: os golpistas estão nus com as mãos nos bolsos!

A BARBÁRIE CONTRA A MULHER

A BARBÁRIE CONTRA A MULHER

       Não creio que seja mera coincidência. No ano de 2015, a violência contra a mulher no Brasil aumentou 44,7% em relação ao ano anterior. A tragédia e a barbárie não são pequenas. A cada 7 minutos, 1 caso de violência acontece. São quase 10 estupros por dia. Não à toa, 2015 foi um ano que registrou um número atípico de cenas explícitas de agressões verbais e de misoginia. E uma referência contundente, que não pode deixar de ser levada em conta, foram os ataques misóginos e as baixarias contra Dilma Rousseff, a primeira mulher eleita presidenta do Brasil. É bem elementar: se fazem o que fizeram com a maior mandatária do País, certamente contribuem para a disseminação da banalização da violência contra a mulher em todo e qualquer lugar. É preciso dar um basta nessa barbárie.

A BANDALHEIRA SUFOCA A DEMOCRACIA E A ESPERANÇA

A BANDALHEIRA SUFOCA A DEMOCRACIA E A ESPERANÇA

       O bem mais sagrado de um estado democrático de direito é o respeito à sua constituição. Mas para o Brasil dos nossos dias isso é pura balela. Em que país civilizado e de regime democrático, pergunto, um senador da República é flagrado em uma gravação confessando em detalhes ser um dos cabeças de um golpe de estado e não vai diretamente para a cadeia? Ora, tentativa de golpe de estado é crime contra a soberania em qualquer país democrático! No Brasil desses tempos tenebrosos, O STF, “guardião da Constituição”, age como cego, surdo e mudo. Enquanto isso, Romero Jucá, o ex-ministro golpista, reassume seu mandato no Senado Federal e ainda debocha do povo brasileiro, posando ao lado do presidente da casa, Renan Calheiros, também golpista, como se nenhum crime hediondo os dois tivessem praticado. São tempos de revolta e de tristeza. Profunda tristeza. Está cada dia mais difícil amar esse País.

TEMER, O MUSSOLINI TUPINIQUIM

TEMER, O MUSSOLINI TUPINIQUIM

       A História registra que o ditador italiano Benito Mussolini, no auge de seus gestos autocráticos, impôs da língua italiana o banimento de algumas palavras que o incomodavam, pois eram usadas pelo povo como arma de chacota contra ele, o ditador. Deu-se que, como quem manda no uso língua é o povo, de nada adiantou. Muito pelo contrário. O povo passou a usar com mais frequência as palavras “proibidas”. Pois bem, Mussolini, o fascista, foi fuzilado ao fim da Segunda Guerra Mundial, seu corpo foi pendurado no teto de um posto de gasolina e o povo, dono do uso de sua língua, continuou a usar aquelas e outras palavras. Pois não é que hoje circula a notícia de que Michel Temer, o golpista do Jaburu, vetou o uso da palavra “Presidenta” em publicações da Empresa Brasileira de Comunicação! Continue lendo

A NÓDOA DO SUPREMO

A NÓDOA DO SUPREMO

       Gilmar Mendes é compulsivo em protagonizar episódios escabrosos que expõem as vísceras de sua atuação lesiva ao papel do STF. Ora, imaginem em qual país do mundo um membro da mais alta corte de justiça enfrenta a calada da noite de um sábado para estabelecer colóquio com um vice-presidente da República que tramou um golpe contra a democracia, carrega acusações de corrupção feitas por delatores, nomeia sete ministros que respondem por crimes de toda natureza no âmbito da Operação Lava Jato, um dos quais, Romero Jucá, é réu confesso em tramar pela derrubada da Presidenta eleita, num atentado criminoso ao Estado de Direito? Continue lendo

O CAÇADOR DE ABSURDOS

O CAÇADOR DE ABSURDOS

Estou-me tornando um contumaz crítico da suspeita qualidade de muitos livros didáticos. É preocupante como eles circulam impunemente por tantas escolas de primeiro e segundo graus e são manuseados com entusiasmo por milhares de professores. Decorrente disso, tornam-se referência respeitada por milhares e milhares de alunos que, iludidos pela credibilidade do lugar social de onde falam seus mestres, vêm nesses livros o caminho da salvação do processo formal de aprendizagem e se esmeram para dar conta de todas as questões neles propostas como exercícios. Não, não se trata de implicância de minha parte. Trata-se, creio, de pura coincidência. Cai um desses livros em minhas mãos, em geral trazido por algum ex-aluno ou retirado por mim de alguma estante de alguma escola, abro-o inadvertidamente em alguma página e lá me vem a indignação com absurdos que ferem os mais elementares princípios científicos e pedagógicos. Continue lendo

POR ONDE ANDAM AS PESQUISAS?

POR ONDE ANDAM AS PESQUISAS?

       A pergunta do jornalista Paulo Nogueira vem em boa hora. As pesquisas foram usadas à exaustão pela banda podre da mídia pra massacrar Dilma Rousseff, presidenta eleita. A ausência delas, por outro lado, tem o objetivo claro de proteger, pela mesma banda podre da mídia, Temer, o golpista, cujo desastre caminha para uma situação insustentável, notadamente agora, que o golpe foi escancarado. A mídia brasileira, com as poucas exceções de praxe, nada tem a ver com o “pilar da democracia”, como insiste em dizer Eliane Cantanhêde. Tem, sim, a ver com os pilares de todos os golpes.

DÁ PRA CONVERSAR COM UM FASCISTA?

DÁ PRA CONVERSAR COM UM FASCISTA?

       A filósofa Márcia Tiburi, em seu livro “Como conversar com um fascista”, nos propõe uma tarefa que, a princípio, pode parecer inglória, a começar pela própria advertência posta na apresentação da obra pelo professor Rubens Casara: “O fascismo possui a ideologia da negação. Nega-se tudo (as diferenças, as qualidades dos opositores, as conquistas históricas, a luta de classes etc.), principalmente o conhecimento e, em consequência, o dialogo capaz de superar a ausência do saber”. Acontece que Márcia Tiburi não se rende a essas evidências e propõe ao leitor uma sucessão de reflexões do cotidiano que têm como eixo principal e norteador exatamente a busca do diálogo, uma vez que, “para que o diálogo ocorra é preciso haver o que chamamos de abertura ao outro. Continue lendo