HISTÓRIA E MEMÓRIA PEDAGÓGICA (7)

HISTÓRIA E MEMÓRIA PEDAGÓGICA (7)

       Não sei como nem por que incorporei o hábito. Desde muito cedo. Sempre fui cartesiano e rigoroso com a questão de horário. Nada a ver com alguma convivência britânica, de onde vem a fama da pontualidade. “O horário da reunião é britânico”, diríamos. O certo é que nunca consegui me desobrigar desse hábito. Ainda que tenha me esforçado em muitas ocasiões. No velho ICHL, no campus da Universidade Federal do Amazonas, por exemplo, sabia exatamente o tempo a ser consumido da sala de professores até à sala de aula. Aí incluídos uma breve pausa na cantina, para um cafezinho, e uma pequena margem de segurança para uma eventual conversa com colegas professores ou alunos ao longo do trajeto. Mas muito antes de ingressar na universidade como docente, já praticava o hábito. Lembro-me de que, quando ministrava aulas para o ensino fundamental, turmas de 6o ao 9o ano, no antigo Colégio Brasileiro da família Silvestre, os alunos me conheciam muito bem. Quando a cansada sirene anunciava o horário de início das aulas, eu já estava na porta da sala de aula aguardando a chegada da turma. Mas com a mesma pontualidade eu interrompia uma frase ou uma explicação ao soar da mesma sirene, anunciando o final do tempo de aula. Esse hábito, que até hoje carrego comigo, valeu-me dos alunos do Colégio Brasileiro um apelido engraçado e simpático de que nunca esqueci: Criket. Para quem não sabe, era uma marca de isqueiro da BIC cujo comercial na TV exaltava sua infalibilidade e sempre terminava com o slogan: “Não falha nunca!”.

A DITADURA DAS BARRINHAS

       Aeronave em velocidade de cruzeiro, luzes de afivelar cintos apagadas, a voz elétrica e pouco melodiosa da comissária de bordo invadia o salão da aeronave e anunciava com uma ponta de orgulho na voz: “Senhoras e senhores, dentro de instantes daremos início ao nosso serviço de bordo. Neste voo, serviremos sanduíche frio com pão de gergelim, queijo provolone, queijo cheda, presunto de peru, tomate e patê de milho, acompanhado de Coca-Cola, Coca-Cola light, guaraná, suco de laranja e suco de manga, cerveja Sol e Xingu”. Lembram-se da época? Continue lendo

VIRAM O BELCHIOR POR AÍ?

       Bate uma lembrança danada. Resgato Belchior no Spotify. Que beleza! O reencontro tem o dom da reinvenção. Assim como a releitura de um livro depois de anos. Descobertas antes não percebidas veem à tona. Afinal, a percepção é alimentada pela história e pelas experiências acumuladas na vida. Eu não sou hoje o mesmo. Sou outro. Não mais aquele que ouvia Belchior anos atrás. E os ouvidos mais apurados do outro de hoje se dão conta. Como é intensa a inspiração de Belchior! Como são primorosos e sofisticados os arranjos de suas músicas! Como são inquietantes suas provocações! Quer quando nos impregna de um passado que vive em nós, “…apesar de termos feito tudo, tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”, quer quando nos liberta desse mesmo passado, “…no presente, a mente, o corpo é diferente, e o passado é uma roupa que não nos serve mais”. A música brasileira anda um pouco pobre. Ô, gente, alguém viu o Belchior por aí?

O MEMORIALISTA MARCELO RUBENS PAIVA

O MEMORIALISTA MARCELO RUBENS PAIVA

       O ritmo e o envolvimento com a leitura costumam ser determinados pelo tipo de material que nos cai em mãos. Há livros, por exemplo, que se leem com toda calma do mundo. Assim como há livros que se leem com sofreguidão, ansiedade e pressa de se chegar à última página. Tanto no primeiro quanto no segundo caso, nem sempre significa dizer que sejam livros chatos ou desinteressantes dos quais queremos nos livrar. É da natureza dos livros balizarem uma ou outra forma de interlocução com o sentimento do leitor.

       Da interminável fila de leituras que se avolumam na estante e nas entranhas do meu Kindle, acabei me decidindo pelo e-book, e a bola da vez foi “Ainda estou aqui”, de Marcelo Rubens Paiva, Continue lendo

SOB O SIGNO DA LUCIDEZ

SOB O SIGNO DA LUCIDEZ

Nada melhor que a ida descomprometida a uma livraria. Aquele paciente ritual de percorrer as diversas prateleiras, flertando com capas, contracapas, orelhas e sumários, não raras vezes é recompensado com alguma descoberta surpreendente. Sempre acontece comigo, como há poucos dias, quando me deparei com uma obra tão fascinante, que me vi obrigado a negociar comigo mesmo o desrespeito à enorme fila de livros que, por hábito, estou sempre organizando sobre a minha mesa de trabalho. Continue lendo

PARINTINS DE MÚLTIPLOS OLHARES

PARINTINS DE MÚLTIPLOS OLHARES

Já nem me lembro bem quando foi. A recepção aos visitantes nada tem de convencional. Enquanto na sala de desembarque aguardávamos as malas e caixas de livros, passamos a ouvir, a princípio distante, como algo remoto, o som ritmado dos tambores naquela animada cadência que embala as pernas dos mais tímidos e resistentes no famoso movimento dois pra lá dois pra cá. Com a abertura da porta que dá acesso ao estacionamento, o rufar dos tambores aproxima-se, invade nossos ouvidos e nos brinda com um delicioso abraço. Agora, visualizamos melhor a cena. Dezenas de crianças comandam com extrema habilidade e largos sorrisos aqueles instrumentos de percussão. Nessa altura, impossível ter absoluto controle sobre os movimentos. Mesmo simulando controle e indiferença, o coração se ajusta ao ritmo e se torna indisfarçável o reflexo no tic-tac das mãos, que se misturam a abraços de boas vindas embalados pela clássica saudação: “Sejam bem vindos os visitantes que vêm nos trazer o seu alô…” Jeito espontâneo e carinhoso de receber os que chegam. Continue lendo

AS REVELAÇÕES DE HEMINGWAY

AS REVELAÇÕES DE HEMINGWAY

       Já falei outras vezes. Gosto de ler cartas. Bem diferente da ficção ou de um texto formal, a escritura de cartas é, no geral, marcada pela espontaneidade, pelo desprendimento e por uma dose sempre maior de sinceridade. Os missivistas costumam mostrar-se por inteiro. Ausente também está desse gênero de texto a preocupação com o estilo, o que acaba permitindo mais descontração e menos formalismo no arranjo das frases que formam o texto. Pois essa gostosa sensação estou sentindo a cada página que avanço na leitura de “As cartas de Ernest Hemingway”, lançado no Brasil pela Editora Martins Fontes. Continue lendo

O MUNDO FRATURADO DO CINEMA

O MUNDO FRATURADO DO CINEMA

(Para o Aurélio Michiles, que tem paixão pelo cinema)

Gosto de cinema, mas já não gosto de ir ao cinema. Acho até que já falei sobre isso ou coisa parecida. Não, nem pensar que assim tenha sido desde sempre. Minha infância e juventude foram vividas dentro de um cinema. E sempre que tenho oportunidade falo ou escrevo a respeito deste sempre lembrado período da vida em que a magia do cinema me fazia romper qualquer barreira entre o sonho e a vida que eu menino vivia no meu bairro de São Raimundo.

Não, também, que minha paixão pelo cinema tenha parado no tempo. Criei meu próprio Cinema Paradiso em casa. Com tela que mata minha saudade do velho cine Ideal e um razoável acervo em DVD que venho construindo há anos, sobretudo na condição de um incorrigível caçador de promoções. O que não gosto mais, repito, é de ir ao cinema. E penso que tenho minhas razões.

Pode haver situação mais incômoda, com o início da projeção, do que a desconcertante orquestra promovida pelo barulho das embalagens de papel e pelo seu vizinho ao lado, triturando impiedosamente o milho de pipoca na boca? Pode haver coisa mais inconveniente do que a alternância dos diferentes toques de celulares a bom perturbar o seu juízo? Mais que isso, que obrigação você tem de aturar a breguece ou breguice do infeliz que resolve atender ao celular e discutir, em alto e bom tom, os encontros e desencontros de sua vida amorosa? Isso sem contar com aqueles outros com pendor para cineastas da pirataria, que comprometem sua atenção com o visor dos celulares ou das câmeras. Nada contra a paixão desenfreada e os beijos ‘calientes’ à moda saca-rolha, desde que aconteçam, convenhamos, em outro lugar e não causem constrangimento a quem investiu num ingresso bastante caro para tirar proveito de outras cenas. Pergunto eu o que pode haver de mais explícita e descarada invasão territorial do que o tosco esparramado na poltrona, logo atrás, não satisfeito com a parte que lhe cabe naquele latifúndio, esticar as pernas sobre a poltrona da frente e achar absolutamente natural você ter o dever de suportar o odor das suas botinas vencidas? Não, assim não dá!

Mesmo não sendo herdeiro de nenhuma linhagem nobre na minha árvore genealógica, decididamente me recurso a compactuar com o que, para um velho amigo, é a maior evidência da estupidez, da ignorância, de um mundo inculto e fraturado. No meu tempo, o escurinho do cinema era um lugar sagrado.

DÁ PRA CONVERSAR COM UM FASCISTA?

DÁ PRA CONVERSAR COM UM FASCISTA?

       A filósofa Márcia Tiburi, em seu livro “Como conversar com um fascista”, nos propõe uma tarefa que, a princípio, pode parecer inglória, a começar pela própria advertência posta na apresentação da obra pelo professor Rubens Casara: “O fascismo possui a ideologia da negação. Nega-se tudo (as diferenças, as qualidades dos opositores, as conquistas históricas, a luta de classes etc.), principalmente o conhecimento e, em consequência, o dialogo capaz de superar a ausência do saber”. Acontece que Márcia Tiburi não se rende a essas evidências e propõe ao leitor uma sucessão de reflexões do cotidiano que têm como eixo principal e norteador exatamente a busca do diálogo, uma vez que, “para que o diálogo ocorra é preciso haver o que chamamos de abertura ao outro. Continue lendo

O MÉDICO E O PROFESSOR

O MÉDICO E O PROFESSOR

Não compartilho da crença de que, quando nada se tem a fazer, joga-se conversa fora com os amigos ou, como se falava antigamente, conversa-se fiado, no sentido de que se fala por falar, diz-se por dizer, como se, de repente, a linguagem se destituísse de significado. Creio muito mais no princípio lembrado por Saramago, em seu livro de memórias, de que nenhuma palavra é inocente, isto é, nada do que se diz é gratuito; tudo o que se diz tem um valor linguisticamente socializado.

Dia desses, por exemplo, numa conversa com um amigo, exercitei a formulação de uma tese que, a princípio absurda, pura conversa fiada, depois se mostrou, para mim, carregada de sentido. Fiz uma comparação entre o que se convencionou chamar de erro médico e a negligência de um professor. Continue lendo