A NUDEZ DO PRÍNCIPE

A NUDEZ DO PRÍNCIPE

Na apresentação do livro de Palmério Dória, o jornalista e editor Luiz Fernando Emediato, depois de um breve raio-X da obra, faz uma pergunta intrigante: “onde estava, no reinado dos tucanos, o ministério público, o procurador geral da República, os Joaquim Barbosa daquele tempo?” E arremata: “O chamado “mensalão” – tenha existido ou não – parece coisa de amadores diante do profissionalismo de empresários, burocratas e políticos daquele tempo. Nenhuma CPI. Nenhuma investigação que chegasse ao fim. Nenhuma denúncia capaz de levar a um processo e a uma condenação!” Foi o mote pra eu me debruçar sobre o texto do também jornalista Palmério Dória, sacramentado com o sugestivo título “O príncipe da privataria” (Geração Editorial, 2013) e, de lá, já do corpo da obra, extrair a afirmação que serve de contraponto contundente à pergunta de Emediato: “De 1994 a 2002, o Brasil viveu tempos peculiares. Pagou para vender suas empresas e pagou para reeleger seu presidente. Nunca dantes na história deste país houve coisa igual”.

Ao longo do livro, no que se pode chamar de texto saboroso e envolvente, Palmério Dória, com enorme espírito investigativo, reconstitui as cenas mostradas e as de bastidores, muitas inéditas, que serviram de pano de fundo para as tenebrosas negociatas que resultaram na subtração, sempre muito camarada, de enorme porção do patrimônio público brasileiro; passa pela descoberta “explosiva” e escondida durante seis anos pela mídia amiga: o rebento de Fernando Henrique Cardoso com uma jornalista da Globo, fato que, se tivesse vindo à tona na época, teria derramado uma pá de cal sobre a candidatura do sociólogo; retoma o fio da meada da compra de votos de parlamentares para a aprovação da emenda à constituição, que viria permitir a reeleição do príncipe, mesmo já no poder, e traz à luz o até então desconhecido deputado acreano que, dentre outros, confessou ter recebido R$ 200 mil pelo compromisso de seu voto e não se furtou a derramar detalhes complementares e inéditos daquelas ardilosas transações, durante entrevistas gravadas por Dória para o livro. De quebra, o autor ilustra, com detalhes de causar inveja, as andanças, os acertos, os conciliábulos, a desenvoltura e a ambição do então ministro Sérgio Motta, arrecadador voraz de fundos para as campanhas tucanas, aquele que previu que o projeto de poder para o qual ele trabalhava tinha perspectiva de vinte anos.

Ao chegar à última página de “O príncipe da privataria”, depois de se atravessar estarrecedoras passagens do que foi a história naquele período, a sensação de absoluta perplexidade remete necessariamente o leitor à igual perplexidade de Luiz Fernando Emediato: como é possível tudo aquilo ter acontecido e passado incólume diante de tantos olhares? Neste sentido, o jornalista Palmério Dória presta um inestimável serviço à História do País, dando guarida a acontecimentos que já corriam risco de ser apagados pela cínica eloquência de alguns de seus protagonistas.

Por pura coincidência, encerro a leitura do livro quando vem à tona uma dessas bombásticas frases do senhor Fernando Henrique Cardoso: “Se eu tivesse 15 anos a menos, na circunstância atual, disputaria a Presidência da República porque estou com vontade de mudar”. Acredite, se quiser.

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