A REVOLUÇÃO ESTÁ NAS REDES

A REVOLUÇÃO ESTÁ NAS REDES

É cedo pra análises conclusivas. Mas é indiscutível. As manifestações mundo afora, que tiveram nas Redes Sociais seu maior capital mobilizador, representam um fenômeno tão extraordinário quanto as grandes revoluções que marcaram, até então, o mundo moderno. É nessa perspectiva que o sociólogo espanhol Manuel Castells faz uma reconstituição crítica e histórica desses movimentos sociais em seu livro “Redes de indignação e esperança”, lançado no Brasil pela Zahar Editora. Da Tunísia, onde tudo começou, num movimento que o autor classifica de “a revolução da liberdade e da dignidade”, passa pela Islândia, onde os movimentos sociais ficaram conhecidos como “a revolução das panelas”, chega ao Egito patriarcal, onde teve destaque a inédita e corajosa participação das mulheres, sem deixar de focar o movimento dos indignados em seu país, a Espanha, e chegar às mobilizações que tomaram conta dos Estados Unidos com o “Occupy Wall Street”.

Ao longo do percurso, Castells identifica uma série de elementos comuns que marcaram esses movimentos sociais, ainda que acontecidos em lugares geograficamente tão distantes e envolvendo culturas tão díspares. Todos tiveram o seu estopim num fato aparentemente isolado; todos foram marcados pela truculência da repressão policial; todos começaram pelas redes sociais da internet, aproveitando a autonomia e a liberdade oferecida por esses espaços; e, uma característica absolutamente inovadora, “em todos os casos, os movimentos ignoraram partidos políticos, desconfiaram da mídia, não reconheceram nenhum liderança e rejeitaram toda organização formal, sustentando-se na internet e em assembleias locais para o debate coletivo e a tomada de decisões”. É certo que nem todos esses movimentos lograram o êxito esperado, mas é certo, também, que nenhum dos países que viveram, nas palavras do autor, esse movimento “viral”, hoje é o mesmo.

Como a passagem do sociólogo pelo Brasil em 2013 coincidiu com as mobilizações daquele inesquecível mês de junho, Manuel Castells dedica o posfácio de sua obra ao fenômeno brasileiro, que, em sua essência, em nada fugiu dos movimentos sociais acontecidos no resto do mundo. Pena que, particularmente nesse caso, o sociólogo espanhol perca o controle do seu olhar observador e crítico e construa um discurso panfletário e genérico, como se vivêssemos no Brasil de há um século. Mas esse detalhe, que reflete a visão do meu espírito de leitor, não desmerece a extraordinária contribuição para começarmos entender esses novos tempos, em que “a internet forneceu o espaço seguro em que as redes da indignação e da esperança se conectaram”.

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