AS REVELAÇÕES DE HEMINGWAY

AS REVELAÇÕES DE HEMINGWAY

       Já falei outras vezes. Gosto de ler cartas. Bem diferente da ficção ou de um texto formal, a escritura de cartas é, no geral, marcada pela espontaneidade, pelo desprendimento e por uma dose sempre maior de sinceridade. Os missivistas costumam mostrar-se por inteiro. Ausente também está desse gênero de texto a preocupação com o estilo, o que acaba permitindo mais descontração e menos formalismo no arranjo das frases que formam o texto. Pois essa gostosa sensação estou sentindo a cada página que avanço na leitura de “As cartas de Ernest Hemingway”, lançado no Brasil pela Editora Martins Fontes.

       Mas antes de seguir nos comentários, devo registrar que a obra me caiu nas mãos da maneira que mais gosto: por acaso. Significa ter ido à livraria não com o propósito de adquirir um livro determinado, mas apenas ter ido ir à livraria, perambular pelos corredores, namorar as capas e os cheiros dos livros, degustar trechos em páginas aleatoriamente escolhidas, familiarizar-se com a orelha… Nesse ritual sempre muito gratificante, deparei-me com as cartas de Hemingway e foi amor à primeira vista. Há não muito tempo, havia pago uma antiga dívida com ele, lendo “Paris é uma festa”, e esse reencontro não poderia ter sido diferente.

       Ao lado das razões que me levam a gostar de ler cartas, uma em especial me chamou atenção. Como esse primeiro volume cobre o período de 1907 a 1922, portanto entre seus 8 e 23 anos de idade, é fascinante percorrer a linha do tempo através dos textos das cartas e perceber, a cada novo texto, o amadurecimento não apenas no uso da matéria-prima de sua arte – a palavra – , como também na definição do estilo simples, direto e cativante que veio a consagrar Hemingway como um dos maiores escritores que o mundo já conheceu. Neste sentido, eu diria que ler na sequência cronológica as cartas de Ernest Hemingway, dos textos simples de uma criança de 8 anos aos textos mais densos e articulados de um adulto de 23 anos, já profissional da escrita, é valer-se de uma rara chance didática, principalmente para aqueles que já se envolveram ou pretendem se envolver com a paixão pela escrita.

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