CARTA À SÍNDICA

CARTA À SÍNDICA

Já foi há algum tempo, na residência anterior. Deu-se que eu havia chegado ao limite. Até então, endereçara as reclamações a mim mesmo, criando um círculo vicioso e sem consequências práticas. Era preciso sair disso. Juntar as palavras à ação. A primeira iniciativa foi lançar mão do telefone convencional. Pensei depois que isso não satisfaria o grau de minha irritação. Ensaiei o uso dessa maquininha da moda chamada celular. Não seria em nada diferente da primeira alternativa. Por que não manifestar pessoalmente minha indignação? Afinal, bastaria subir dois lances de escada. Ou, menos cômodo ainda, apertar o botão do elevador. Não, nenhuma dessas iniciativas atenderia o desejo de lavrar o rosário de reclamações que eu havia acumulado ao longo já de algum tempo. Decidi apelar para um expediente já tão esquecido e, para muitos, ultrapassado: a carta. Pois é. Escrevi uma carta para a síndica do prédio onde moro.

Resisti o quanto pude, Senhora Síndica, a ocupar meu precioso tempo escrevendo-lhe esta carta, mas a situação tornou-se insustentável. A cada dia é mais difícil e menos prazerosa a convivência no condomínio. Sinto-me agredido no que os antigos chamavam de sagrado espaço do lar.

No andar superior ao meu, por exemplo, parece não se dar mínima importância aos vizinhos, principalmente àqueles que moram no piso inferior, por coincidência o meu caso. Vale tudo. Cedo, pela manhã, entre seis e meia e sete e meia, tem-se o incômodo de ser acordado com o toc-toc-toc próprio do uso de salto alto. Mas a situação não para por aí. Ainda pela manhã, com início por volta das oito e trinta, prorrogando-se por um longo tempo, o insistente e intrigante arrastar de móveis e outros objetos é tão ostensivo, que consegue tirar a concentração do mais compenetrado dos mortais. Como eu sou dado a trabalhar em casa e tenho um filho pequeno, dá para imaginar o que isso representa de incômodo para mim e de sustos para ele. Pela parte da tarde, há uma relativa trégua que já não nos ilude, pois à noite, muitas vezes independentemente do horário, embora de forma menos recorrente, o intrigante arrastar de móveis e objetos volta a acontecer.

Ao lado disso, e aí já sem condições de especificar a origem, uma vez que há vários apartamentos acima do meu, fatos outros acontecem e estão a merecer registro.

Com alguma frequência, vejo-me diante de copos descartáveis e outros objetos voadores menos desejáveis que, audaciosamente, invadem a área de serviço do meu apartamento. Como moro no primeiro andar, impossível não deduzir, pela mais elementar lei da física, que eles sejam projetados de um dos pisos superiores.

Deixou de ser novidade, também, a varanda de minha sala servir de cinzeiro. É simples a comprovação. Basta que a senhora síndica consulte a encarregada da limpeza do prédio ou verifique, in loco, a quantidade de pontas de cigarro que repousam no gramado frente ao meu apartamento. Como não temos esse hábito em casa, não é difícil imaginar o que representa de constrangimento ter que recolher as cinzas e as pontas do cigarro que não se fumou. Há mais. Não raro temos sido presenteados, na mesma área, com outros objetos não menos indesejáveis, como pedaços de papel (Pasme! Um dia desses recolhi um pedacinho de higiênico. Menos pior. Limpo!), embalagem de bombons e outras cositas mais.

Fato no mínimo esquisito, a denunciar a ausência do mais elementar princípio de convivência e preservação do meio ambiente, é o que posso classificar de prática esportiva de arremesso. Inúmeras vezes, já presenciei sacos de lixo voando em minha frente em direção ao terreno situado nos fundos do prédio. Tem-se, aí, pelo menos, uma explicação inquestionável para o acúmulo de insetos que, diariamente, fazem do meu apartamento extensão do seu lar.

Creio, Senhora Síndica, que os fatos acima arrolados deveriam ser suficientes para inquietar não apenas a mim como também a todos os condôminos, sejam proprietários, sejam inquilinos. Afinal, para os primeiros, representa um alerta para a possibilidade de desvalorização de um patrimônio que, adquirido com tanto sacrifício, corre o risco de entrar num processo de deterioração irreversível. Para ambos, representa um alerta para a possibilidade de se estar abrindo caminho para uma convivência conflituosa e desrespeitosa que fere a construção do exercício da plena cidadania, cuja máxima mais conhecida é aquela ensinada por nossos velhos pais: “O nosso direito termina exatamente onde inicia o direito do outro”.

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