CINEMA À ANTIGA

CINEMA À ANTIGA

Desde há muito, tornou-se uma raridade eu sair de casa para ir a uma sala de cinema. Diga-se de passagem, entretanto, que isso nada tem a ver com o meu fascínio pela chamada sétima arte, iniciado na minha infância intensa e saudavelmente vivida no já antigo bairro de São Raimundo. Trata-se de outra história.

Dia desses, ao ligar o televisor num desses canais que exibem os chamados filmes clássicos, deparei-me com um fragmento de cena em preto e branco que mostrava os personagens, no meio de uma verdadeira multidão, dirigindo-se a um cinema. Foi o mote suficiente para me situar em algum lugar do passado e resgatar gratas recordações acomodadas em algum canto da memória que melhor ajudam entender o meu distanciamento das salas de cinema.

Chega-me à lembrança que, antigamente, saía-se de casa para, objetivamente, ir ao cinema, no sentido definido do termo. Ou seja, havia um prédio onde funcionava, com exclusividade, o cinema. Era sempre uma ida programada, com roteiro certo, não acidental. Bem diferente, portanto, de ir a um shopping e, circunstancialmente, assistir a um filme ou ir a um cinema (hoje todos eles ficam nesses espaços) e sofrer toda tentação de se perder nesse suntuoso templo de consumo. Embora não pareça, a diferença faz muito sentido.

Como fazia sentido chegar ao cinema bem antes do início da sessão! Havia uma enorme sala de espera, contígua à de projeção. Confortáveis poltronas espalhavam-se e, estrategicamente, transformavam aquele espaço em ponto de encontro dos amantes da sétima arte. Pessoalmente, o que mais encantava minha curiosidade de adolescente era chegar bem cedo para namorar, com toda paciência, um a um, aqueles intermináveis cartazes que, fixados nas paredes, eram indicativos das próximas atrações e projetavam antecipadamente vastas emoções em meu imaginário.

Lembro-me, ainda, que os cinemas mais prestigiados tinham sempre uma música padrão que anunciava o início do filme (no saudoso cine Pálace, localizado no início do Boulevard Amazonas, nunca me esqueci, era sempre a inesquecível Luzes da Ribalta, de Chaplin). A partir daí, dava-se início a todo um respeitado ritual. Atraídas pelo som já conhecido, as pessoas então reunidas na sala de espera dispersavam-se. Cada uma apressava-se em se dirigir ao lugar de sua preferência. Depois de alguns segundos de tolerância, ocupados pela suavidade da música (sempre orquestrada, nunca cantada!), enquanto todos se acomodavam, acontecia uma mágica sincronia que me fascinava e que, até hoje, resgato facilmente de algum cantinho da memória e revivo: as luzes iam-se apagando lenta e gradualmente, seguindo os passos dos sons da música que, ao mesmo tempo, se distanciavam de nossos ouvidos. Com o silêncio que se seguia, construía-se o cenário mais do que adequado para a viagem ao mundo da sétima arte.

Dava-se, então, um outro lance que, inevitavelmente, me deixava deslumbrado. O início da projeção era feito sobre as cortinas de veludo que protegiam a imensa tela. Gostava, em especial, do pássaro, que levantava vôo do cume de uma montanha e a contornava, transformando-se, como num passe de mágica, no nome da distribuidora: Condor Filmes. Ao mesmo tempo, as cortinas iam-se abrindo lenta e gradualmente. Com isso, as imagens seguintes eram aos poucos transferidas para a brancura da tela, que as recebia e lhes dava a necessária definição.

Naquele tempo, o cinema tinha mais magia e encantamento.

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