CRIME SEM CASTIGO

CRIME SEM CASTIGO

       Num desses dias, o Conselho Nacional do Ministério Público decidiu, por 12 votos a 2, demitir um procurador da República de nome Douglas Kirschner. A razão? Ele foi acusado de ter espancado a ex-mulher e tê-la mantido em cárcere privado. A notícia correu as redes sociais. No dia seguinte, o jornal O Globo estampou a seguinte manchete: “Conselho do MP determina demissão do procurador que investiga Lula”. Se fosse um caso isolado de flagrante tentativa de manipulação da verdade, teria passado despercebido. Acontece, porém, que o episódio é representativo do comportamento cotidiano da chamada grande mídia brasileira, na busca frenética da defesa de seus interesses políticos, empresariais e de classe. No afã de se imiscuir nos rumos políticos do País, os donos das redações mutilam o compromisso social com a informação e passam a assumir um papel que caberia aos partidos políticos.

       Em seu livro “Crime de imprensa”, os jornalistas Palmério Dória e Mylton Severiano, armados com a experiência e o invejável conhecimento na seara do bom jornalismo, dão um mergulho profundo no submundo deplorável das redações e colocam diante dos olhos do leitor as várias facetas do modus operandi com que atuam os chamados barões da mídia e os lacaios que lhes são cúmplices. Verticalizando a abordagem nas eleições de 2010, quando Dilma Rousseff disputou a Presidência da República com José Serra, Palmério e Severiano reúnem um invejável arsenal de elementos factuais que permite aos dois jornalistas desvelar, com detalhes e precisão, os bastidores das artimanhas engendradas, dentro e fora das redações, com o propósito de beneficiar o candidato tucano e desqualificar a candidata petista. A abordagem percorre todo o período de campanha, é recheada por acontecimentos, históricos e contemporâneos à época, e denuncia o trabalho aparentemente meticuloso e competente, em especial da Rede Globo, da família Marinho, para ocultar toda e qualquer revelação que pudesse comprometer a candidatura de Serra, protegê-lo dos amigos incômodos, como FHC, Eduardo Jorge e Paulo Preto, exaltar suas qualidades e, no contraponto, montar armadilhas para sua adversária. O episódio da bolinha de papel arremessada na cabeça de José Serra, depois transformada quase em um tijolo pelas trucagens da Globo, a escolha do candidato tucano a vice, o desconhecido e problemático Índio da Costa, o conceito de “massa cheirosa”, atribuído por uma jornalista da Folha de S. Paulo aos correligionários do candidato do PSDB, o falso dossiê de Dilma Rousseff, publicado pelo mesmo jornal, a matéria publicada no Estadão, dando conta de que Serra estava em campanha no Tocantins, quando na verdade gravava programas em um estúdio em São Paulo, as acusações de que a candidata petista era a favor do aborto, interrompidas quando se descobriu que a mulher de Serra, Mônica Serra, tinha praticado aborto, e tantas e tantas outras revelações surpreendentes, como a de que Carlos Heitor Cony, conhecido por ataques a Lula e ao seu partido, foi um abnegado produtor de editoriais para derrubar João Goulart, tendo dado, portanto, uma sinistra contribuição ao golpe de 1964.

       A valiosa contribuição que Palmério Dória e Mylton Severiano trazem para a história sinistra do jornalismo brasileiro encontra hoje abrigo perfeito na experiência e nas palavras do jornalista americano Glen Greenwald, em recente declaração: “Trabalhei muitos anos na Abril, e alguns na Globo. Só fui notar com clareza o caráter maligno de ambas ao viver em Londres. A distância me permitiu ver o horror indecente que marca as companhias jornalísticas brasileiras. (…) Em nenhuma sociedade avançada é tolerada uma conduta criminosa como a da mídia do Brasil”.

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