DISCURSO DE CRIANÇA

DISCURSO DE CRIANÇA

       Chegou pra mim com expressão circunspecta de quem carrega sobre os ombros o peso de uma grande dúvida, calculando, naturalmente, o tempo de intervalo entre um episódio e outro de seu desenho preferido. Fixou-me um profundo olhar e, do alto da experiência de seus seis anos de idade, cravou a pergunta. Quarenta e sete reais é muito dinheiro? Pego de surpresa, gaguejei um pouco, mas me contive para não indagar sobre as razões daquela inusitada demanda, o que poderia ser tomado por ele como provocação. Respondi que sim, quarenta e sete reais eram bastante dinheiro. Pegou daí o mote para o seu improvisado silogismo. Então a televisão está mentindo! Construo minha expressão de surpresa e arrisco saber por que. A resposta vem na bucha. Sabe aquele dinossauro que a gente viu na loja outro dia? A televisão está dizendo que ele custa apenas quarenta e sete reais! Então, ela está mentindo! Convicto de sua lógica, não me deu chance para quaisquer comentários adicionais. Recuperou a serenidade, deu meia volta e bateu em retirada rumo ao quarto, onde o aguardava o compromisso, acidentalmente interrompido, de assistir a mais um episódio do coelho Pernalonga. Não é a primeira vez que ficamos a matutar, eu e meus botões, sobre o quanto se costuma subestimar a capacidade de percepção e discernimento dessas criaturinhas. O episódio pode até parecer banal. Bem analisado, porém, envolve um intrincado jogo discursivo que, a partir do cotejo entre a palavrinha “apenas” e a expressão “muito dinheiro”, exige uma inferência que não está posta no plano mais visível, digamos assim, do texto. É preciso, portanto, acionar a percepção para dar conta do jogo e buscar essa inferência, representada pela conclusão de que a televisão está mentindo. E é essa lógica que permite desconstruir o propósito contido naquele anúncio de venda do tal dinossauro veiculado nos intervalos do desenho animado. Noutro dia, passávamos frente a certo supermercado que tem fama de ser careiro, assunto comentado à exaustão em casa. Titubeando, como é natural em quem se inicia no fantástico mundo das letras, Eric decodificou lentamente no outdoor a palavra ba-ra-to… Barato! Pensou um pouco e, em seguida, lascou sua conclusão: não é verdade, não é, pai?

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