A DITADURA DAS BARRINHAS

       Aeronave em velocidade de cruzeiro, luzes de afivelar cintos apagadas, a voz elétrica e pouco melodiosa da comissária de bordo invadia o salão da aeronave e anunciava com uma ponta de orgulho na voz: “Senhoras e senhores, dentro de instantes daremos início ao nosso serviço de bordo. Neste voo, serviremos sanduíche frio com pão de gergelim, queijo provolone, queijo cheda, presunto de peru, tomate e patê de milho, acompanhado de Coca-Cola, Coca-Cola light, guaraná, suco de laranja e suco de manga, cerveja Sol e Xingu”. Lembram-se da época?

       Com meus botões, ficava sempre a imaginar: aos ouvidos e olhos de um marinheiro de primeira viagem, aquele elenco de aparente variedade representava uma novidade absoluta, mesmo porque a expressão que iniciava o anúncio – “neste voo” – transmitia o sentido de uma particularidade única, dando a entender que em outros voos o cardápio seria diferente. Ledíssimo engano. Arriscava-me a apostar que, naquele momento, em outras dezenas de voos, dezenas de outras comissárias anunciavam, sem tirar nem pôr uma palavra, exatamente o mesmo e vasto cardápio. A propósito, particularmente no caso do sanduíche, ninguém se arriscava na vã esperança de identificar os ingredientes que recheavam o surrado pão. Seria perda de tempo. Eles estavam no plano da absoluta virtualidade, eram elementos imateriais.

       A situação não era diferente em voos de uma outra empresa. Afora alguma variação no texto, a essência era a mesma. “Senhoras e senhores clientes, dentro de instantes daremos início ao nosso serviço de bordo. Serviremos barrinhas de cereais de castanha e coco acompanhadas de…” E a ladainha ia na mesmíssima direção.

       Sinceramente, não sei o que norteava a lógica daquele perverso monopólio da mesmice a enquadrar as pessoas no odioso plano da homogeneidade. Se o objetivo era reduzir custos, para baratear o preço das passagens aéreas – o que concretamente nunca aconteceu – , ainda assim era incompreensível que as empresas não oferecessem diversidade dentro da margem de custos.

       Batia-me uma saudade danada dos tempos em que o serviço de bordo era o momento mais esperado de uma viagem aérea. Chegava-se ao respeito de regionalizar-se a oferta. Guardo na memória algumas vezes em que me deliciei com um ensopadinho de pirarucu com arroz e verduras, em voos partindo de Manaus com destino a São Paulo. Quanta saudade do glamour da velha e boa Varig! Depois dela, quem diria, passaríamos a viver por um longo tempo a mais pobre, surrada e humilhante das ditaduras. A ditadura das barrinhas de cereais. Estão lembrados?

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