ENSAIO SOBRE O FUXICO

ENSAIO SOBRE O FUXICO

       Não, não se trata de um tema banal. Foi, inclusive, pivô de um tremendo alvoroço já faz algum tempo. Espalhou-se com a velocidade de um raio a notícia. Amazonino Mendes, então prefeito de Manaus, teria se referido com desdém à comunidade dos tuiteiros, taxando-os de fuxiqueiros. A turma se sentiu ofendida. Numa demonstração de eficiência e importância do funcionamento dessa rede social, em pouquíssimo tempo a indignação ganhou a rua, ou melhor, os computadores e celulares de milhares de adeptos do Tuíter. Cada um ao seu modo e de sua trincheira virtual espalhou seu protesto num ritmo frenético de dar inveja ao marqueteiro do Obama. Construída a unanimidade daquele sentimento de defesa, tudo leva a crer que o prefeito tenha contabilizado adversários de forma gratuita. De minha parte, entretanto, tudo não passou de uma confusão conceitual ou, pra ser mais técnico, daquilo que os estudiosos da língua chamam de questão morfossemântica. Ora, fuxiqueiro, numa compreensão embasada mais na experiência do que no Aurélio, diz-se daquele ou daquela que, não se contendo em privatizar a informação, tem por hábito passá-la adiante, evocando, diga-se de passagem, um louvável espírito socialista. Ou seja, o fuxiqueiro é apenas um porta-voz dos fatos, ainda que alguns desses fatos possam ser futricas. Nesta perspectiva, pode-se deduzir, o prefeito, no fundo, fez um elogio aos tuiteiros, reconhecendo neles uma relevante contribuição à sociedade. Outra coisa, por outro lado, é o futriqueiro. Diz-se daquele ou daquela que pratica os mesmos hábitos do fuxiqueiro, mas, não contente em apenas socializar a informação, acrescenta a ela a roupagem que lhe convém, com o propósito sorrateiro de causar intriga, espalhar cizânia e dela tirar proveito. Ora, prefiro acreditar que o prefeito, homem de alta quilometragem rodada nos bastidores da seara política, não tenha se referido aos tuiteiros nessa acepção do termo, embora não se possa descartar haver, entre eles, alguns poucos chegados à futrica. Neste caso, talvez se enquadrem mais no conceito de piciqueiros. Diz-se daquele ou daquela que acredita tanto em si, que se acha no direito de se intrometer em tudo e com todos. Há dois tipos clássicos: o primeiro dá picica em tudo, mas reconhece suas ratadas e até pede desculpas ao picicado; o outro, quando não acerta, põe a culpa no picicado. É o chamado piciqueiro pávulo e prepotente. Mas aí eu já estou me alongando muito nessa história. Paro por aqui, antes que algum bacabeiro pense que estou fazendo futrica.

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