ESSAS INOVAÇÕES

ESSAS INOVAÇÕES

       Fui comunicado por imeio. Os mais recentes brinquedinhos da Apple colocados na praça despertaram paixões e suspiros em muitos jovens e marmanjos. Incluo-me entre estes últimos, não espalhem. A nova geração de iPad e iPhone chegou às lojas em pouco mais de um ano. E as coisinhas já se transformaram no objeto do desejo de milhões de pessoas em todo o mundo. Não é pouca coisa. Sempre me impressionou a extraordinária capacidade e rapidez de inovação dessas criaturas e suas maquininhas maravilhosas. Impressiona-me mais ainda o fato de não darem sossego à nossa incontrolável compulsividade para o novo. Mal havia me dado conta de descobrir algumas das centenas de possibilidades da versão anterior dos impertinentes brinquedinhos e já anunciaram novos modelos recheados de novidades. Assim não é possível! Em tempos que não vão longe, as coisas não aconteciam com tal celeridade. Tínhamos longo tempo de convivência e familiarização com os nossos objetos de desejo. Perdíamos de vista qualquer perspectiva de que algo novo viesse a acontecer. Cultivávamos uma sensação de perenidade. Foi assim quando consegui, depois de muito tempo, organizar a minha discoteca. Dedicava um cuidado extremado aos meus discos de vinil, hoje ironicamente apelidados de bolachões. Acomodava-os na vertical e, com regularidade, prestava-lhes a necessária assistência. Com uma flanela levemente umedecida pelo velho e bom óleo de peroba, removia de cada uma das superfícies quaisquer sinais de poeira, evitando, assim, fossem arranhados durante a execução. A maior revolução tecnológica na época, no auge dos importados da Zona Franca de Manaus, era a vitrola Nivico, de canelinhas finas, som estéreo. Tinha o condão de permitir com que se ouvissem até cinco discos! O lado A e depois o lado B, é claro. Em dado momento, o braço que fixava a fina agulha levantava-se bruscamente, estrebuchava por alguns segundos e pousava suavemente sobre o disco que acabara de cair sobre o prato. Maravilha! Pura maravilha! Muito tempo depois, perambulando pelo velho centro da cidade, entrei em uma importadora chamada Oriente e me deparei com a grande sensação do momento: um aparelho de fina sofisticação dava cabo de demonstrar, sem ruído algum, o funcionamento de um CD. A música encheu-me os ouvidos e, sem esforço, fui identificando os principais instrumentos que dialogavam entre si. Fiquei encantado com a novidade. Apesar do preço salgado, a compulsividade foi maior. Comprei, portanto, o CD. Tenho até hoje essa joia rara. Só depois de uns três ou quatro meses reuni capital para adquirir o aparelho que me permitiria entrar, de fato, naquela nova era. Enfim, entre o início de minha coleção de vinil e o CD demorou uma eternidade. Hoje saímos da loja já sabedores. A tecnologia que acabamos de comprar está vencida. Coisa maluca. Eu, hein!

Share on Facebook0Tweet about this on TwitterShare on Google+0Pin on Pinterest0Email this to someonePrint this page