LEDO ENGANO

LEDO ENGANO

       Contando ninguém acredita. Sim, para o senso comum, escritores, poetas e cronistas têm verdadeira paixão pelo que fazem. Sentem imenso prazer no ato da escritura de seus textos. Convivem com sessões de orgasmos sempre que se recolhem àquelas horas em que a inspiração transborda e sinaliza o momento do parto, sempre normal, de uma obra. Não, francamente eu não acredito nisso. Escrever, pra mim, nunca foi um ato prazeroso. Muito pelo contrário. Parir um texto, por menor que seja o rebento, é sempre fruto de um enfrentamento feroz e aguerrido contra a telinha em branco do editor de textos. Passa por um jogo de extremo estoicismo e atravessa situações delicadas em que se mesclam estados de ânimo e de desesperança. Juro! É verdade. A maior prova disso está no fato de que, nesse duro embate, textos e mais textos inconclusos já ficaram pelo meio do caminho, filhos bastardos a me infligir fragorosas derrotas. E o pior: estranhamente mantenho-os em uma pasta exclusiva, nas entranhas do meu computador, como troféus de meus dissabores e zumbis a desafiar minha paciência. Chego mesmo a acreditar que eles ganham vida própria e zombam de minhas limitações. Raro, muito raro consigo retomar um deles e dar cabo ao projeto inicial. Penso até já ter discorrido sobre esses insólitos episódios em alguma ocasião. Fujo do texto como o diabo foge da cruz. Dele me esquivo de toda maneira. Aciono o editor de textos, mas logo invento outras necessidades e acesso os portais de notícias ou minha caixa de imeios. Começo a escrever a primeira linha do texto, mas logo invento pretextos que passam pela necessidade de ir até a cozinha beber água ou assaltar a geladeira, correr à janela pra ver um carro em velocidade ou mesmo não resistir ao convite para uma partida de PS3 com o filho Eric Sena. Até o canto dos passarinhos acampados nas mangueiras das vizinhanças é pretexto para eu adiar a feitura de um texto. Ledo engano, portanto, quem acha que escrever é um exercício de extremo prazer e realização. E não creio ser o único na defesa desse princípio. Certa vez, já se vai algum tempo, assisti a uma entrevista com a saudosa escritora cearense Rachel de Queiroz. Me deu um ânimo danado. Indagada se gostava do seu ofício de escritora, disparou um olhar de censura ao entrevistador, apontou em direção à escrivaninha e arrematou. “Meu filho, veja se você encontra ali algum texto pronto. Escrevo por necessidade e porque preciso sobreviver. Escrever pra mim não é uma coisa fácil”. Dei-me conta de que não estava sozinho nesse mundo, mundo vasto mundo e passei a redobrar minha admiração pela autora de “O quinze”. Ou vocês acham que foi fácil chegar até aqui?

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